Ricardo Mota

Estupefação Aviltante…

-1=-1hora
-1x5=-5
-5x4=-20
-20x12=-240
-240x40=-9600
-9600:7=-1371dias
-1371:30=-45 meses
-45:12= -4 anos de trabalho
 
Sei que a matemática, a tal ciência exacta, não para de evoluir, surpreender e reinventar-se. Problemas indecifráveis vão sendo resolvidos, mas no parto da resposta, novos e mais intrincados dilemas são colocados ao mundo, à ciência.

Xeque Mate…

É larga a enseada. A curva, ampla e espraiada, reino do verde, local dos Deuses, onde o murmúrio da água corrente embala a mente e o longe nos mostra o espelho em que o sol e o céu se miram, esta curva obriga à contemplação, à demanda.

Entre o Coração e a Mente…

Talvez o fim da época balnear de 2017. Fim de tarde no adeus a um Agosto apetecível. A praia da Princesa, com vistas privilegiadas no apontar do Cabo Espichel, ali numa Caparica da outra margem do Tejo, em territórios da Mina de Ouro que deu nome a Almada, caminhos que ao Sul levam, o cenário convida à meditação.
Estendido na areia, de braços abertos no afago dos céus, enterrado na confortante areia, de pálpebras cerradas no aconchego da mente, liberto o pensamento, encontro-me a mim, falo comigo sentindo o bater das ondas que morrem na praia, exaustas e felizes.

Simplesmente do Benfica…

Ali para os lados da Régua, muito perto de Mesão Frio, colada a Vila Marim, numa pequenita aldeia de nome Sedielos, dorme passado de menino. Por ali fui gente, de calções com alças cruzadas nas costas, por lá podia voar ao sabor do vento, abraçar a liberdade, beber a alegria do viver, sentir-me eterno, a imortalidade povoava-me os sonhos dos quais não queremos acordar.

Calhaus Graníticos…

Acredito que no sótão das memórias, lá no baú das recordações, todos juntamos tralhas para mais tarde recordar. Numa das caixas de lata, de flandres claro, imaginária, dormem tesouros das nossas vidas, dos degraus de crescimento. Amiúde basculho, reviro, encontro-me lá para trás, nos inícios, nos meios, nas estradas que aqui me trouxeram. Em todos os patamares do ensino, de aprendizagem, gosto do que encontro no inconsciente, quando nele remexo.

Fiel de Armazém…

Na memória que ainda me acompanha carrego lembranças de responsabilidades, evento de adultos. Viajo muitas vezes no túnel do tempo, gosto de me encontrar nas profundezas do crescimento, nos recordares felizes ou dolorosos.

Eu sei de um País…

Eu sei de um país onde impera a frustração. Só de saber que por aqui foi dado aconchego a quem trafica a força humana, física e intelectual, e que com esse negócio afasta o futuro a muitos jovens e desumaniza os do meio-da-vida, impele-me ao grito. Leio, ouço e sei que os ditos gigantes transnacionais contratam via outsourcings, com privados e com o meu Governo.

Um Querer…

Difícil contar esta história. Não sei por onde começar pois o inverosímil mora por aqui. Como pode ter sido possível nunca ter ouvido falar desta aldeia ou, pior ainda, nunca ter visto placa alguma designando esta povoação. Ninguém acreditará quando relatar o que meus olhos viram. Recebi um mail de alguém que dizia ter sido meu colega de primária há cerca de sessenta anos, que há muito vive nesta aldeia transmontana e, por mero acaso, soube das minhas vivências e adoração por Trás-os-Montes, que para estas paragens me desloco vezes sem conta.

Um Fósforo…

No caminhar da vida tropeçamos nas palavras, com descuido não avisado passamos por muitas sem as olhar de frente, talvez por medo. As palavras são como as coisas, inúmeras delas não nos fazem sentido até ao dia que elas mesmo se nos impõem, gritam mesmo, agora vês porque existo?

No Gatilho…

A vertigem dos tempos, a desenfreada competição, o devorar das novas tecnologias, o inútil consumismo, a conquista do diferente, tudo são ingredientes do sangue gelado, abafador dos afagos que cimentam as amizades, o convívio, a socialização.
O irreal germina pela calada, o homem progride para autómato, mas por tonta ironia, tenta dar alma aos robôs autómatos que invadem o planeta.