Ricardo Mota

Simplesmente do Benfica…

Ali para os lados da Régua, muito perto de Mesão Frio, colada a Vila Marim, numa pequenita aldeia de nome Sedielos, dorme passado de menino. Por ali fui gente, de calções com alças cruzadas nas costas, por lá podia voar ao sabor do vento, abraçar a liberdade, beber a alegria do viver, sentir-me eterno, a imortalidade povoava-me os sonhos dos quais não queremos acordar.

Calhaus Graníticos…

Acredito que no sótão das memórias, lá no baú das recordações, todos juntamos tralhas para mais tarde recordar. Numa das caixas de lata, de flandres claro, imaginária, dormem tesouros das nossas vidas, dos degraus de crescimento. Amiúde basculho, reviro, encontro-me lá para trás, nos inícios, nos meios, nas estradas que aqui me trouxeram. Em todos os patamares do ensino, de aprendizagem, gosto do que encontro no inconsciente, quando nele remexo.

Fiel de Armazém…

Na memória que ainda me acompanha carrego lembranças de responsabilidades, evento de adultos. Viajo muitas vezes no túnel do tempo, gosto de me encontrar nas profundezas do crescimento, nos recordares felizes ou dolorosos.

Eu sei de um País…

Eu sei de um país onde impera a frustração. Só de saber que por aqui foi dado aconchego a quem trafica a força humana, física e intelectual, e que com esse negócio afasta o futuro a muitos jovens e desumaniza os do meio-da-vida, impele-me ao grito. Leio, ouço e sei que os ditos gigantes transnacionais contratam via outsourcings, com privados e com o meu Governo.

Um Querer…

Difícil contar esta história. Não sei por onde começar pois o inverosímil mora por aqui. Como pode ter sido possível nunca ter ouvido falar desta aldeia ou, pior ainda, nunca ter visto placa alguma designando esta povoação. Ninguém acreditará quando relatar o que meus olhos viram. Recebi um mail de alguém que dizia ter sido meu colega de primária há cerca de sessenta anos, que há muito vive nesta aldeia transmontana e, por mero acaso, soube das minhas vivências e adoração por Trás-os-Montes, que para estas paragens me desloco vezes sem conta.

Um Fósforo…

No caminhar da vida tropeçamos nas palavras, com descuido não avisado passamos por muitas sem as olhar de frente, talvez por medo. As palavras são como as coisas, inúmeras delas não nos fazem sentido até ao dia que elas mesmo se nos impõem, gritam mesmo, agora vês porque existo?

No Gatilho…

A vertigem dos tempos, a desenfreada competição, o devorar das novas tecnologias, o inútil consumismo, a conquista do diferente, tudo são ingredientes do sangue gelado, abafador dos afagos que cimentam as amizades, o convívio, a socialização.
O irreal germina pela calada, o homem progride para autómato, mas por tonta ironia, tenta dar alma aos robôs autómatos que invadem o planeta.

Portugal Escaleno….

Nas profundezas da memória, sugado num intemporal túnel de quarenta anos, esvai-se um sonho. As referências, balizas do caminhar, são guias que acalentam, ajudas no atravessar da vida, estabilizadores de equilíbrio. O tempo que por nós passa, varinha de condão, é foice de dois gumes, atesta o continuar, mas lentamente retira-nos as ilusões que vão caindo, os quereres que se furtaram, as amizades que, partindo, nos deixaram sós.

Respeito-te Oh Mar…

Daqui, da falésia, observo a imensidão que enche o espaço. Misturadas no azul do céu as gaivotas planam em liberdade absoluta, ondulam ao sabor da brisa, picam em voo rasante em caça de peixes distraídos. O pinheiro manso que me abriga e me empresta descansativa sombra, há muito que por aqui vive, dizem-me ser um jovem ancião.

Em Homenagem ao Padre Ochoa

Os pulmões e a alma revigoram-se nestas bandas. O sítio tem nome de infância, Cerejais. Daqui enxergam-se terras de Moncorvo, para lá do vale do Sabor. Em dias de Primavera orgulho-me de viver nestas terras, tal o privilégio no alcance da vista: urzes, giestas, arçãs, lírios do campo, estevas e um céu imenso. A vastidão do horizonte extasia os viajantes que por aqui vagueiam. São muitos os caminheiros que se aventuram por estes lados pois que são devotos do Santuário Mariano.