Ricardo Mota

Um Fósforo…

No caminhar da vida tropeçamos nas palavras, com descuido não avisado passamos por muitas sem as olhar de frente, talvez por medo. As palavras são como as coisas, inúmeras delas não nos fazem sentido até ao dia que elas mesmo se nos impõem, gritam mesmo, agora vês porque existo?

No Gatilho…

A vertigem dos tempos, a desenfreada competição, o devorar das novas tecnologias, o inútil consumismo, a conquista do diferente, tudo são ingredientes do sangue gelado, abafador dos afagos que cimentam as amizades, o convívio, a socialização.
O irreal germina pela calada, o homem progride para autómato, mas por tonta ironia, tenta dar alma aos robôs autómatos que invadem o planeta.

Portugal Escaleno….

Nas profundezas da memória, sugado num intemporal túnel de quarenta anos, esvai-se um sonho. As referências, balizas do caminhar, são guias que acalentam, ajudas no atravessar da vida, estabilizadores de equilíbrio. O tempo que por nós passa, varinha de condão, é foice de dois gumes, atesta o continuar, mas lentamente retira-nos as ilusões que vão caindo, os quereres que se furtaram, as amizades que, partindo, nos deixaram sós.

Respeito-te Oh Mar…

Daqui, da falésia, observo a imensidão que enche o espaço. Misturadas no azul do céu as gaivotas planam em liberdade absoluta, ondulam ao sabor da brisa, picam em voo rasante em caça de peixes distraídos. O pinheiro manso que me abriga e me empresta descansativa sombra, há muito que por aqui vive, dizem-me ser um jovem ancião.

Em Homenagem ao Padre Ochoa

Os pulmões e a alma revigoram-se nestas bandas. O sítio tem nome de infância, Cerejais. Daqui enxergam-se terras de Moncorvo, para lá do vale do Sabor. Em dias de Primavera orgulho-me de viver nestas terras, tal o privilégio no alcance da vista: urzes, giestas, arçãs, lírios do campo, estevas e um céu imenso. A vastidão do horizonte extasia os viajantes que por aqui vagueiam. São muitos os caminheiros que se aventuram por estes lados pois que são devotos do Santuário Mariano.

Isto é da Joana…

Vão longe os tempos de menino, tempos de brincares e dos primeiros passos na aprendizagem, no interiorizar de regras rumo à socialização. Após a liberdade total nas vielas da aldeia que o viu nascer, protegido por todos os olhos do lugarejo, feliz no meio dos que o amavam, Manel entrou pelos portões da Escola Primária, sitio onde moravam os medos.

Mar da Palha…

Lá no Porto, debruçado sobre a foz do Douro, vive o sitio por onde deambulei nos tempos da rebeldia, ali muito perto da Cantareira onde Carlos Tê deu asas ao Chico Fininho. Os nevoeiros escondem-se por aqui e o mar, que se espreguiça ali bem perto, ofusca-se e desaparece por dentro dele, mas ronca assustadoramente nas noites de invernia. Um farol, plantado ali bem perto da casa de família, lembra a marinhagem que daqui se agigantou desafiando os Adamastores que se misturavam nas revoltosas ondas que aqui chegam vindas do além.

As Semente do Diabo…

Sobre a História que aí virá vão sendo contadas muitas historinhas, daquelas que embalam. Os contadores, agricultores frustrados, tentam plantar opiniões pessoais, umas vezes ingénuas outras propositadas, convencidos que daquele arbusto brotarão Factos Históricos.
Nos longincos anos de 85/95, no Portugal daqueles tempos, tomou o poder um novo Senhor Feudal. O povo, agradecido, farto das desavenças esquerdinas em que cada cabeça sua sentença, vira-se para a sereia, a do melodioso canto, a direita que cumpre.

Os TRUMPEN…

Lá no tempo dos extremos, cabeça e pés, o mundo girou, deu a volta, os polos revoltaram-se, o eixo desposicionou-se. A moçarada pôs cabelos ao vento, a guedelha trunfou-se e descaiu ao encontro dos ombros e, lá no fundo, abafando os sapatos, os sinos instalaram-se nas bocas das calças varrendo o chão que pisávamos. Nossos pais, coitados dos nossos pais, ficaram com os cabelos em pé e seus pés perderam forças, fraquejaram face à incompreensão do arrojo.

Ponto-Morto…

Nos meus felizes anos, na infantil meninice, ali pela instrução primária, no Felgueiras que me viu nascer com a imponente bênção do Monte de Santa Quitéria, o mundo sorria pois que me sentia livre como os pássaros, a vida era risonha e airada.