Factos e pós-factos

Há vários anos que a Comunicação Social vive mergulhada numa crise profunda. O que começou em fartura, com a proliferação nos anos 90 de cursos superiores de jornalismo que começaram a despejar no mercado de trabalho mão d’obra às centenas, nem sempre bem preparada.
Os meios de comunicação existentes não foram capazes de absorver a quantidade de novos jornalistas que se faziam à vida e que, face à escassez de oportunidades, foram abrindo portas a precariedade e ao esvaziamento da memória das redações.
Hoje, ser jornalista implica conseguir trabalhar sob pressão, com uma multiplicidade de meios tecnológicos que nos colocam no imediato em contacto com milhões de leitores.
Nunca como agora o mundo mudou tanto e tão depressa. Se até aqui as sociedades tinham séculos para se adaptarem às inovações tecnológicas que iam sendo introduzidas, hoje as inovações nascem e ficam ultrapassadas e obsoletas antes mesmo de haver uma passagem de geração.
Isso veio colocar uma pressão acrescida às redações, que têm de se adaptar freneticamente a novos meios, plataformas e, acima de tudo, a novas formas de ver e estar no mundo.
Esse fenómeno tem servido para descaracterizar a comunicação social, em muitos casos. A fórmula milagrosa ainda não foi descoberta para lidar com o vórtice das redes sociais. Mas essa pressão não explica nem justifica tudo. Não explica nem justifica que se matem pessoas antes mesmo de elas morrerem, em sítios onde elas nem sequer estão. Aconteceu há uma semana com a criança mirandelense que caiu de uma janela. Bastou que alguém acendesse o rastilho para que a trágica notícia se espalhasse pela internet a uma velocidade impressionante, sem qualquer cuidado ou preocupação de fazer o básico do jornalismo, a verificação da informação. Em nome do instantâneo atropelam-se regras e códigos deontológicos, esquecendo que se o jornalismo deixa de cumprir a sua função de filtro e verificação, deixa de ser necessário. Os últimos números conhecidos mostram isso mesmo. Correio da Manhã, DN, JN e Público venderam, no seu conjunto, menos 16835 exemplares por dia durante 2016. Para redes sociais, já estamos servidos. Cabe-nos a nós ser o farol no meio da tempestade.
PS.: Em Alfândega da Fé levantou-se um pé de vento por causa da Comunhão Pascal. Não deixaria de ser interessante perceber se não há nenhum litígio entre algum familiar e a própria escola. Muitas vezes, estas notícias estão cobertas por um manto de opacidade, na chamada “pós-verdade”.
A jornalista Isabel Stillwell explicou bem esta situação, citando o constitucionalista Bacelar Gouveia: “A liberdade religiosa não significa o apagamento ou desaparecimento das manifestações religiosas no espaço público. Isso seria obrigar a comunidade a converter-se a uma religião que é a não-religião”. Também é curioso ver que alguns que agora questionam uma atividade estudantil nunca tenham questionado de onde vinha o dinheiro que pagava férias e jantares opíparos no tempo em que se relacionavam com um antigo Primeiro-Ministro...