A opinião de ...

Violências

Sem ruído, sem perder a vontade de ouvis e ler, passando a ponte da gritaria, procurando ir ao cerne da questão, vou verificando o efeito da propaganda a impedir a serena análise do saliente, longo e profundo problema das violências em geral, da violência doméstica em particular.

A violência é o contraponto da concórdia, o violento Caim pastor matou o seu irmão Abel agricultor, o primeiro defendia a posse de pastagens, o segundo praticava a agricultura arroteando campos, eclodiu o conflito. Caim assassinou Abel.
A história integra montanhas de episódios do género, o emérito Arnold J. Tpoynbee ensina-nos a entender os ciclos da História integrantes de desmesurada violência que se reflecte nas sociedades, tanto mais sofisticada quanto o progresso científico e técnico alicerçado no velho desejo do Homem subjugar os homens tal como tantos e tantos Homens denunciaram, valendo salientar a título de exemplo o brigadista Orwell.

Sendo assim e é a violência doméstica é uma maleita de difícil extirpação porque o maniqueísmo prevalece, além de ser fácil logo pouco custoso o homem e também a mulher conhecerem as debilidades de cada um explorando-as a seu favor chegando à violência de múltiplas variações, ao cúmulo do mais forte ou mais sinistro extorquir a vida da mulher ou do homem. Esta tragédia repete-se em todos os extractos sociais, o binómio harmonioso conjugal esfarela-se, resta a crueldade da dupla – senhor e servo – quantas vezes invertida como Losey o recreou num seu magistral filme.
Em sociedades marcadamente machistas, vivendo debaixo das pulsões – honra e vergonha – ensimesmadas e agrilhoadas pelo olhar de revés, o sorriso escarninho e o dichote enviesado o ofendido ou supostamente ofendido é acometido de uma fúria taurina após receber farpas profundas e… fere ou mata. Dizia-se nas nossas aldeias: passou-lhe uma coisa pela cabeça. Explicar isto aos papagaios e palradoras televisivas é trabalho inglório. Educar as mentes encanecidas ainda menos possível.

A berraria tonal a atonal não tem nada de extraordinário, os que é dito em função dos sucessivos atentados à integridade das mulheres faz parte da sociedade de espectáculo (Debord), aumentada grotescamente nas redes sociais quando o cerne do problema se radica no modo de extirparmos a praga de modo a sobre a ira prevalecer a temperança, de forma a moderarmos as linguagens colocando nos confins do nosso cérebro todas as referências culturais onde figure um resquício de violência escondida com a rabo a recordar a nossa herança cultural. Dois exemplos. Podiam ser muitos mais.
«Faça o mal quem o fizer, quem as paga é a minha mulher». «Sebastião come tudo, come tudo sem colher, quando vai para casa dá pancada na mulher…»
Eu não tenho a receita salvífica, ninguém tem, capaz de colocar um ponto final na onda violenta, podia alinhavar meia dúzia de narizes de cera, prefiro, no dia-a-dia, educar-me, dar valor ao silêncio no diz tu, digo eu.

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