A opinião de ...

Estradas finas para um imperial futuro

Por estes dias, um concurso na televisão pública perguntava a um concorrente a que se referia no norte do país quando se pedia um fino. A resposta indicada era “uma imperial”. A questão é que “imperial” é um regionalismo, assim como “fino”, ambos referindo-se a cerveja de pressão. Mas traduz a visão centralista da capital de que o país é aquilo que se observa de uma qualquer janela do Terreiro do Paço. Mas o país é muito mais do que isso.
Uma boa rede viária tem sido, ao longo da História, a base da evolução da sociedade, cultura e economia. Tome-se o Império Romano como exemplo e a forma como se impôs no Mediterrâneo, com uma rede viária inovadora para a época, que permitia a circulação de pessoas e bens por toda a extensão do Império, assim como a deslocação do Exército a uma velocidade superior à convencional. Uma rede que, dois mil anos depois, ainda tem algumas componentes em uso.
Por cá, em vez de olharmos para o passado e aprendermos com a História, vemos as pessoas como quantidade de votos, mais ou menos impressionável, e encaram-se investimentos nesta área como gastos com uma população em número insuficiente para ser mais reivindicativa.
Recentemente, os autarcas da Comunidade Intermunicipal Terras de Trás-os-Montes (que, à exceção de Freixo de Espada à Cinta, Torre de Moncorvo e Carrazeda de Ansiães), corresponde ao distrito de Bragança, reuniram com o ministro das Infraestruturas, Pedro Marques. Em causa, os investimentos previstos para a região na próxima década. Que, como se sabe, são praticamente inexistentes. As maiores reivindicações passam pela ligação entre Carção e Vimioso, Bragança e Vinhais e a conclusão do IC5 até à fronteira espanhola, para além da conclusão do IP2 (interesses particulares deixaram estranhamente uma bolsa por concluir entre a Junqueira e o Pocinho). Depois, surgem outras reivindicações, com a ligação a Espanha à cabeça. E aqui começam os problemas. Se uns (Bragança sobretudo) defendem o prolongamento do IP2 até ao comboio de alta velocidade na Puebla de Sanábria, outros (Macedo e Vinhais) querem a ligação entre Macedo de Cavaleiros e a Gudinha, em Espanha, onde passará o AVE, o comboio de alta velocidade espanhol.
Ora, o Governo torce o nariz a estes investimentos, pois despejar dinheiro numa região quase sem votantes não é uma atitude popular em tempo de eleições. Pois com o mesmo dinheiro podem-se arregimentar mais votos. Esta foi mais ou menos a mensagem passada aos autarcas transmontanos, associada aos investimentos feitos no tempo de Sócrates na A4, IP2 ou IC5.
Uma posição que encerra dois erros de perspetiva. Por um lado, dos autarcas transmontanos, incapazes de uma concertação reivindicativa, preferindo dispersar as atenções por uma multiplicidade de pequenas reivindicações em vez de um endurecimento da voz em prol de menos mas melhores objetivos comuns.
Por outro, a perspetiva do Governo de que estes investimentos seriam para uma região despovoada. Encurtar a ligação entre o porto de Leixões e o centro da Europa através da melhoria da ligação a Espanha nunca pode ser encarado como um capricho regional mas sim como um desígnio nacional, que beneficiaria todo o país, desde logo por facilitar as exportações.
O mesmo em relação à melhoria do aeródromo de Bragança, que começa a suscitar interesse de grandes empresas mundiais de transporte de mercadorias.
Olhar para isto como questões meramente regionais não é só redutor, é castrador para o país.
Mas enquanto um fino for uma imperial, não é fácil.

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