A opinião de ...

Atualidade Política

1 – “OS POLÍTICOS COM CLASSE” E…..”A CLASSE” DOS POLÍTICOS”
Para não desiludir ninguém, porque este título não tem nada a ver com qualquer vulgar trocadilho ou simples jogo de palavras, aviso desde já que esta análise não se dirige aos políticos como pessoas “com classe”, entendida como sinónimo de qualidade que, felizmente, ainda os há, (mesmo que apenas os suficientes para acalmar a fúria dos deuses), votados exclusivamente ao serviço da “coisa” pública, motivados, políticos competentes e dedicados à actividade política, actividade essa não entendida como uma prebenda, mas sim como uma missão ao serviço do bem comum, ao serviço da “Polis” enquanto a casa comum, donde também eles provêm e onde também eles se integram.
Por exclusão de partes, obviamente, é dirigida tão só à classe dos políticos, uma “classe” muito sui generis, que me obrigou a um trabalho insano para a classificar enquanto tal, e que, mesmo depois de consultar vários dicionários da língua portuguesa, não encontrei um substantivo colectivo adequado para os classificar com total propriedade.
Neste contexto, deixo a cada um o mérito e a liberdade de o fazer. A título de colaboração, limito-me a elencar mais de duas dúzias dos muitos substantivos colectivos, que na nossa língua são tão abundantes, tais como multidão, turba, grupo, conjunto, rol, ajuntamento, amálgama, vaga, enxurrada, cambada, montão, gado, manada, rebanho, trupe, tagalho, enxame, bando, constelação, chusma, caterva, ror, cardume, alcateia, aglomerado, nabal, na esperança de que algum possa coadunar-se para nele integrar todos aqueles, e aquelas, (e são tantos, santo Deus!), que vivem na e da política, vendo esta, não como uma das mais nobres e dignas actividades humanas mas, unicamente e só, como a grande agência de bons empregos, excepcional feira de vaidades, ponte para dar o salto da sua mediocridade para a ribalta do estrelato, oportunidade de ouro para a promoção e afirmação pessoal e agarrar a miraculosa gazua que, durante e depois dos mandatos, irá escancarar-lhes as portas douradas de acesso aos grandes cargos de direcção ou de administração de empresas, (especialmente das públicas), de subir a escada dourada do poder que poderá guindá-los, e porque não, até aos píncaros dos mais altos cargos do Estado, tudo mudando para eles a partir daí. Agora como novos “Senhor(a) isto” e “Senhor(a) aquilo”, já com direito a assessores, (uma forma eufemística e disfarçada de classificar pessoas com a formação e a capacidade técnica que eles raramente têm, (lembro-me, a propósito, dum curiosíssimo artigo do antigo RDM que, sem tirar nem por, dizia que “ o sargento tinha de saber ler e escrever, que o oficial podia ser filho de nobre e não saber”) ,a secretária particular, vistoso Mercedes, ou equivalente, com dispensa de cumprir as regras mais básicas do Código da Estrada, motorista privado, segurança pessoal, manutenção, seguro, combustível, etc., etc., etc….., o que, à partida, inevitavelmente, levanta um sem número de questões muito pertinentes, tais como:
- Conseguido tudo aquilo com que nunca haviam sonhado que, como que caído dos céus aos trambolhões, lhes inchou o ego, os sentou à mesa do orçamento e passou a alimentar-lhes as suas vaidades, é justo perguntar quantos continuarão a preocupa-se com o verdadeiro serviço à “polis”, essa polis entendida como a casa comum de todos, donde, como já referido, também eles são originários?
- Será que, para uns tantos, a razão única de se apresentarem a sufrágio, apenas tinha subjacente a vontade de se alcandorarem à qualidade de figuras, (eu até diria de figurantes ou de figurões) de primeira linha, podendo, a partir daí, pavonear-se nas primeiras páginas da comunicação social, refastelar-se no conforto do ar condicionado, disfrutar do luxo dos mármores e do brilho inebriante dos granitos polidos e deleitar-se no conforto dos gabinetes alcatifados do poder?
- Que significado, que interesse ou que proveito passam a ter todos os outros, a que eles, com enorme desfaçatez chamam o povo, esse povo ao qual apenas reconhecem o direito e, mais que isso, o dever e a obrigação de trabalhar, e trabalhar no duro para, através das taxas e dos impostos, com que o sobrecarregam sem dó nem piedade, sem conta nem medida, sem justiça nem equidade, apenas na medida certa para garantir as suas mordomias, povo que eles reduzem a números, no qual só voltarão a pensar quando precisarem de montar uma nova estratégia mais eficiente para, de novo, lhes sacar o voto, a força do povo como, enfaticamente, eles gostam de lhe chamar, mas que, bem vistas as coisas, só o mantêm porque lhes convém que o dito povo continue convencido de que o voto um direito, é a sua arma e a sua força?
- Que terá de acontecer mais para que os cidadãos, a que eles chamam “o nosso povo”, (a que eles, se fossem minimamente honestos, durante as campanhas eleitorais, deveriam chamar o “seu povo”) se consciencializem que esse seu direito, essa sua arma e essa sua força, depois de sepultados na escuridão da profundeza das urnas, apenas serão números e percentagens, factores que eles irão explorar e manipular a seu belo prazer, para poderem continuar a cavalgar o cavalo do poder ou, no mínimo, continuar a passear-se no corredor dos Passos Perdidos de S. Bento?
Nos próximos comentários, tentarei abordar as hipóteses possíveis do porquê desta situação e da forma de tentar reverte-la.

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3718