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Higiene leva Papa a rejeitar o beija-mão

Há quem prefira ver o Papa como o topo de uma pirâmide, que tem na base os leigos e que vai subindo ao longo dos vários degraus das ordens sacras: diáconos, padres, bispos, arcebispos e cardeais. No polo oposto situam-se os que querem ver o Papa e todos os bispos despojados dos ornamentos e dos símbolos que a história foi acumulando em torno dessas figuras, para se apresentarem como homens comuns, porque todos somos iguais.
Ambas as perspetivas estão erradas. É verdade que, ao longo dos séculos, os bispos foram-se revestindo de muitas vestes e rodearam-se de uma quantidade de objetos que, sobretudo no caso do Papa, preteriram a humildade e a atitude de serviço que os deveria caracterizar: a “Diaconia da Caridade”.
Felizmente, desde o século passado, muitos desses elementos caíram em desuso. Alguns foram substituídos por outros mais adaptados aos dias de hoje: é o caso da Sede Gestatória, em que o Papa era transportado, que deu lugar ao Papamóvel. A tiara imperial (a coroa dos Papas) foi vendida por Paulo VI para acorrer às necessidades dos mais pobres. Os Flabelos (leques de penas de avestruz) foram arrumados na arrecadação das inutilidades litúrgicas, como tantas outras peças. Estas passaram a só ver a luz do dia numa ou noutra celebração mais tradicionalista, como é o caso da missa tridentina, para gáudio dos saudosistas de uma igreja triunfante, imperial e piramidal.
É esta Igreja que aproveita todas as ocasiões para criticar o Papa Francisco. Mesmo quando este dá continuidade ao caminho iniciado e trilhado pelos seus antecessores – e se apresenta mais despojado e despido desses ornamentos anacrónicos.
Quando não têm razões, inventam-nas. Foi o caso da acusação de o Papa, acintosamente, não ter deixado que lhe beijassem o anel no Santuário do Loreto no passado dia 25. Chegaram ao desplante de publicar nas redes sociais apenas a parte do vídeo que lhes convinha, descontextualizada e editada. Tudo para poderem retirar a conclusão que os deixaria muito felizes: “Francisco, se não quer ser o Vigário de Cristo, então saia!”
Estes, se querem ser ainda mais tradicionalistas, terão então de exigir que o Papa use os sapatos vermelhos com uma cruz bordada a fio de ouro. E obrigar novamente os que vão saudar o Papa a beijá-los nessa cruz. Nem se percebe, aliás, porque é que não querem recuar ainda mais no tempo, no respeito pela tradição, e obrigar o Papa a vestir túnica e a andar de sandálias, como Pedro...
Talvez não seja preciso tanto. Os símbolos, os sinais, alguma solenidade e reverência em algumas circunstâncias, justifica-se. Mas também há outras ocasiões em que isso é verdadeiramente supérfluo e desadequado.
Não é verdade que o Papa não quer que lhe beijem o anel e que, acintosamente, retirou a mão. No vídeo não truncado e acelerado vê-se que o Papa permitiu a várias pessoas que lhe beijassem o anel. Como tem feito tantas vezes – embora, tal como a João Paulo II e Bento XVI, não lhe agrade muito esse gesto. A partir de certa altura, deixou de o fazer porque eram muitos os que pretendiam cumprimenta-lo. O Papa queria acelerar esse momento, dados os compromissos que tinha, e sentia-se transpirado. Tratou-se, portanto, de uma razão prática e higiénica, como já teve oportunidade de explicar o Papa.

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