A opinião de ...

Como é que Te chamas Jesus?

A forma tão óbvia e tão estranha desta enunciação ajuda-nos a perceber que o nomear Deus com o nome de ‘Jesus’ não advém, quase sempre, de um encontro fundante e fundador com Ele. Nomeamo-Lo assim deve-se ao facto de alguém nos ter dito (e ensinado) que Ele assim chamava e não ao facto – salvo raríssimas excepções – de eu próprio me dispor a querer descobri-Lo, a conhecê-Lo, em ir ao encontro d’Ele, deste Deus que permanentemente me chama e que constantemente me pede para que me dirija até Ele, bem junto d’Ele, e n’Ele me enamore e fique inebriado na presença.
Leiamos atentamente o episodio bíblico do cego Bartimeu (cf. Mc 10, 46-52). O pedido desesperado e exasperado dele apenas tem um propósito: «que eu veja Mestre». Voltemos, todavia, atrás no texto: «Ao ouvir dizer que era Jesus de Nazaré que passava, começou a gritar» (Mc 10, 47). Mas como sabe ele quem é Jesus? Quem lhe contou? Como teve ele conhecimento acerca da pessoa e, diríamos, da missão divina de Jesus («Jesus, Filho de David, tem piedade de mim» (Mc 10, 47))? Uma coisa é certa: este homem conheceu Jesus muito antes de O ouvir. O cego Bartimeu descobre Jesus pela escuta. Como é belo isto! O primeiro anúncio nasce sempre na arte de escutar uma palavra. Jesus comunica-se, primeiramente, pela palavra, pela escuta e no silêncio. Sim, no silêncio! Este cego descobre-O na escuta atenta da Palavra, no silêncio mais profundo do seu coração onde, como que numa epifania, descobre-O e re-conhece-O sem O ver.
Bartimeu é sinal indelével da resiliência e da perseverança: não desiste, não desarma, não se cala, mesmo perante aqueles que o mandavam estar quieto e calado. Quantas vezes não somos nós como estes…! Quantos não mandamos já calar só porque são simplesmente ‘diferentes’? É nesta mesma indigência que Bartimeu revela o seu mais profundo desejo: encontrar-se com Jesus para «ver». É muito curioso que o texto sagrado diga que «tirou fora a capa, deu um salto e foi ter com Jesus» (Mt 10, 50). Tirar «fora a capa» é desejar ser revestido com as veste da salvação, ou seja, ser adornado com o dom da Fé, como se de um baptismo se tratasse; é deixar para trás o homem velho e ser revestido pelo homem novo, salvo e renovado em Jesus Cristo; é voltar ao ventre da criação como escutamos nos Génesis; é voltar ao nú primordial e santo; é ser uma nova criatura salva e transformada em Jesus, por Jesus e com Jesus.
Como é nova criatura recebe o dom da Fé. Voltou a ver! A ver na sua mais ampla e significativa definição: não só já vê física e empiricamente como também, revigorado pelo dom da fé, já vê com o olhar renovado do coração.
«Ver» implica, assim, seguimento. Um seguimento que faz de mim discípulo sempre em missão e sempre em re-descoberta do Dom, da Graça e da Misericórdia, na sempre eterna, profunda e íntima comunhão com a Santa Igreja Católica. Será que estamos dispostos em querer «ver»? A iniciar este caminho de re-encontro e de re-descoberta a partir da escuta atenta da Palavra no silêncio profundo do coração? Já saberemos nós, agora, que Jesus é ‘este Jesus’ revelado pelo cego Bartimeu, ou será que, teimosamente, temos vindo adiar esta descoberta bela e transformadora?
Renovo a pergunta inicial: ‘Como te chamas Jesus?’

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3704