. // O "Saco (continua) Roto" Por: / Secção: Editorial / 11-08-2009 · 1 comentário(s) Imprimir Enviar a um amigo
.Já lá vão vinte cinco anos desde o dia em que o D. António Rafael, então Bispo de Bragança – Miranda, ergueu a sua voz para denunciar o desgoverno dos nossos governantes, com a feliz expressão do “Saco Roto”. Portugal estava à beira da bancarrota. Mário Soares, o Primeiro-ministro de Portugal, da altura, pediu aos emigrantes que colocassem no seu país as suas poupanças, garantindo-lhes taxas de juro bonificadas. Foi graças à entrada desse dinheiro que o país conseguiu superar a grave situação que atravessava. Mas, apesar de a maioria dos emigrantes serem oriundos do interior, essas verbas seriam utilizadas para desenvolver sobretudo o litoral. Enquanto foi preciso fixar populações nas zonas fronteiriças para aguentarem as investidas dos que pretendiam conquistar Portugal e anexá-lo ao Reino de Castela e Leão, os governantes investiram no povoamento do interior. Desde então tudo tem contribuído para a sangria das regiões mais recônditas do país. Para encher as naus que viriam a dar “novos mundos ao Mundo”, foram as populações dessas regiões a recrutadas. Aí começou o despovoamento do interior e, o que hoje denominamos, a cada vez mais acentuada assimetria entre o litoral e o interior. O Estado Novo obrigou muitos dos nossos conterrâneos a atravessar as fronteiras, para procurarem melhores condições para si e para os seus, nos países de emigração. Desde então, a população residente no Distrito caiu dos cerca de 230 mil habitantes para os menos de 150 mil, actualmente. Provavelmente, nos próximos censos, não será muito superior aos 100 mil. Com o advento da democracia acreditou-se que essa tendência seria invertida e que finalmente se veria um sério investimento na região e na melhoria das condições dos transmontanos. Com o regresso dos que estavam nas ex-colónias, a região conheceu o único aumento demográfico desde o censos de 1961. A democracia, com a consolidação do poder autárquico, trouxe algumas melhorias às nossas cidades, vilas e aldeias. Construíram-se estradas, instalou-se a luz eléctrica em muitas das aldeias, que não a tinham, passou-se a ter água canalizada e esgotos em quase todas. Mas, foi sol de pouca dura. Poucos anos depois da revolução, logo se percebeu que o investimento e as preocupações dos políticos eram sobretudo com a capital e com o litoral do país, onde se foram concentrando as pessoas. Os regressados das ex-colónias depressa perceberam que não teriam futuro nas suas terras de origem e rumaram aos grandes centros. Com uma maior facilidade de acesso ao ensino superior, os nossos jovens foram estudar para as Universidades e por lá acabaram por ficar, porque, entretanto, na sua terra e na sua região foram fechando uma série de serviços e instituições que ainda poderiam garantir o seu emprego. Sem casais jovens e com a diminuição da natalidade, as escolas foram encerrando e mais uns tantos professores tiveram de sair da região e procurar colocação no litoral do país. Depois de séculos de abandono e apesar de todo o contributo que demos ao país, não se vê a vontade política de emendar os erros do passado e tudo indica que o “Saco Roto” vai continuar a esvaziar para o litoral.

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