Olhar // Solidariedade

Alunos puseram-se na pele de refugiados mas numa aldeia, um outro tipo de ‘refugiado’ ganhou uma casa

António G. Rodrigues em Qui, 07/04/2016 - 18:33

Crianças do Primeiro Ciclo foram desafiadas a imaginar situação em que teriam de abandonar os seus lares e naquilo que levariam consigo. Respostas foram surpreendentes. Mas em Alfaião, a Junta de Freguesia não descansou enquanto não deu um novo lar a um idoso que há quase duas décadas vivia sozinho, numa casa sem água, luz ou quarto de banho.
 
Roupa, água, bolachas, ligaduras, sapatilhas, uma mantinha ou até gomas ou um boneco de peluche são alguns dos artigos que se podem encontrar numa qualquer mochila de criança para enfrentar uma grande viagem pela Europa fora.
“E se fosse eu?” foi o repto lançado a crianças de todo o país e ao qual aderiram escolas de Bragança, como a da Santa Casa da Misericórdia de Bragança, e que ontem puseram os alunos do primeiro ciclo num papel especial, o de refugiados.
Com seis anos, Leonor Pires mostrava, com orgulho indisfarçado, o seu coelhinho de peluche indispensável para uma viagem tão longa e desgastante. “É para dormir”, explicava. Dentro da mochila da Minnie era possível encontrar ainda roupa, um par de sapatilhas, “medicamentos para se ficar doente”, uma carteirinha com dinheiro e um telemóvel. A colega do primeiro ano, Leonor Pires, optou por uma mochila mais leve, apenas com o “suficiente para a viagem”, como comida, água, roupa, escovas de dentes e do cabelo.
Um papel para o qual as crianças foram desafiadas, apesar de ainda terem “dificuldade em perceberem o que está em causa”, explicou a professora Aurora Pereira.
Esta espécie de jogo aconteceu ontem por todo o país. A Santa Casa de Bragança, que se prontificou a acolher refugiados do Médio Oriente, não quis ficar de fora desta iniciativa. “A iniciativa foi lançada a nível nacional pela Plataforma de apoio aos refugiados em colaboração com Direção Geral da Educação, o Alto Comissariado para as Migrações e Conselho Nacional da Juventude”, explicou ao Mensageiro Sara Cameira, responsável na instituição pelo pelo projeto de acolhimento. “A Santa Casa é instituição anfitriã da PAR no âmbito do seu programa PAR Famílias, com protocolo outorgado em outubro de 2015, nos termos do qual se obrigou a acolher e apoiar a integração de famílias de refugiados em instalações suas. Neste momento, disponibiliza um apartamento para uma família com cinco membros. Perspectivando-se a chegada, ainda em momento indeterminado, dessa família, a Santa Casa abraça esta iniciativa”, acrescentou. Os alunos da escola  Dr. Diogo Albino de Sá Vargas foram desafiados a trazer de suas casas uma mochila “com os pertences que levariam consigo caso necessitassem de abandoná-la numa viagem sem regresso definido”. Pretendeu-se “sensibilizar as crianças para a realidade vivida por milhares de pessoas, famílias, crianças que fogem das guerras, permitir-lhes refletir sobre o tema, explorar e partilhar emoções sentidas, desenvolver nelas um espírito de solidariedade e entreajuda”, frisou Sara Cameira.
Na sala ao lado, onde estuda o quarto ano, Rodrigo Metelo ia desfiando o que trouxe de casa, com especial atenção para “o creme para a pele atópica”, os “óculos de sol, telemóvel e carregador”, para além de outros pertences como roupa, calçado, ligaduras, saco cama “ou comprimidos para a dor de cabeça”.
Mas, como a viagem pode ser longa, o melhor “é ir de táxi”. “Não sei para onde ia mas, se estivesse em Bragança, ia para Santulhão” para fugir à guerra, confessa.
A colega Lara Rodrigues, de nove anos, dirigia-se “à Suíça”, onde está o pai a trabalhar. Lia Fernandes, por outro lado, não esquecia o telemóvel, para se “entreter”. Mas “ainda bem que Portugal não está em guerra”, desabafam as crianças.
Para Marisa Pires, professora do quarto ano, “não foi fácil explicar esta situação aos alunos mas todos colaboraram”.

Adriano já pode ver o “seu” Benfica

Mas, ali bem perto de Bragança, na aldeia de Alfaião, Adriano Fernandes vive há quase duas décadas “quase como um refugiado”. Referenciado há vários anos como um dos 3092 idosos que vivem sozinhos pelo projeto Censos Senior da GNR, sempre recusou abandonar a Quinta dos Banheiros, onde tem vivido sem água, luz ou quarto de banho. Mas a Junta de Freguesia, no último verão, adquiriu uma casa na aldeia, reconstruiu-a e, agora, entregou-lha. “A nossa prioridade são as pessoas”, frisa António Baptista, o presidente daquela Freguesia.
O projeto custou cerca de 17 mil euros - 14 mil dos quais comparticipados pela autarquia de Bragança que, de acordo com António Baptista "teve, aqui, um papel fundamental" - mas a casa “foi equipada com todas as condições e mobilada”, explica. Adriano lá se deixou convencer, “custou-lhes a virar-me”, garante, com um sorriso. “Gosto da casa. Se não gostasse, não ia”, garante. Mas pretende andar num vaivém entre a aldeia e a antiga morada onde, sem luz, só o rádio a pilhas lhe permitia ouvir o “seu” Benfica. Agora já pode ir até ao café da aldeia e ver os jogos na televisão.