A opinião de ...

Repensar a Europa

São inúmeros os riscos sobre a evolução da União Europeia, sempre secularmente insegura entre a sua especificidade intelectual e multiplicação severamente contraditória das unidades políticas em que se divide sem até agora esquecer a ambição de ser o centro do globo. Sendo a responsável pela globalização, e dividindo algum tempo entre Portugal e Espanha o domínio imperial dos mares e culturas, e etnias diferenciadas, esgotou em guerras internas essa capacidade global, e tentou com decisão um projeto de coerência entre a identidade cultural e política, depois de duas guerras mundiais, fazendo finalmente surgir a União Europeia, orientada, como a mais ambiciosa ONU, pelo objetivo do “nunca mais”, naquilo que respeitava à violação da paz e dos direitos humanos.
Talvez não seja sem fundamento que não perdeu o sentido de ser o centro do mundo, sendo já apenas uma parcela que se organizava, compensando com tal União não apenas a perda do domínio externo, transformado em circunstância nova e desafiante, e internamente a redefinição do poder chamado soberania, um poder que deixou de ser o interesse dominante das potências individualmente, aconselhadas a organizar-se cooperativamente para responder ao desafio do chamado mundo emergente, que tinha sido no passado o chamado Terceiro Mundo.
Não foi imediatamente reconhecido que o resultado era de duas meias Europas, duas Alemanhas, duas cidades de Berlim, e que a metade europeia democrática tinha como relevante a liderança dos EUA, que sempre se declarara nas duas guerras mundiais como parceiro e não como aliado, fazendo avultar a realidade Atlântica, e a Europa soviética, liderada pela URSS, que não admitia senão a obediência política de cada povo, com submissão à orientação ideológica de potência dominante, e a total negação da democracia da meia Europa ocidental.

O sonho de uma única Europa, unida culturalmente, superior a todos os povos na ciência e na cultura, tinha uma larga contribuição de ilustres pensadores, entre os quais é sempre justo incluir Camões. Mas na data da Paz de 1945, o documento que mais influenciou o projeto da sonhada unidade foi o depois chamado “sonho de Spinelli”.
A ilha de Ventotene, não longe da costa italiana, servia de prisão a prisioneiros políticos do fascismo.
Mas foi ali que, já em 1941, reunidos todos no que ficaria famoso pelo nome de Rochedo de Ventotene, que um jovem antigo comunista, redigiu o pensamento orientador, num texto que ficou conhecido como Manifesto de Ventotene, que lembrava a falência de sonhos como o da Sociedade das Nações (1918), as agressões do nazismo e do fascismo, sustentando, o que realmente não era uma novidade sem passado, para solução, que uma Federação era o remédio para a falência também demonstrada do modelo Estado nacional.
(Continua na próxima edição)

Edição
3714