Azedumes!...

Confesso que gosto de azedas, daquelas que se colhem, sobretudo nas velhas paredes de pedra, das quais se confeciona uma deliciosa salada. Também gosto de azedos, aqueles enchidos regionais tão saborosos, tostadinhos, quando acompanhados de suculentos grelos tenrinhos. Todavia, não gosto de azedumes, nem de conviver com pessoas azedas.
Independentemente da idade, porque há gente nova que parece velha e gente idosa com espírito jovem, por vezes encontramos pessoas que parecem estar quase sempre azedas, amarguradas, com um ar macambúzio, mal dispostas, como se andassem permanentemente zangadas com o mundo ou com elas próprias. Raramente sorriem, mesmo que a vida não lhes dê razões que sustentem o lamento transformado, muitas vezes, num azedume angustiado. Desta predisposição emerge, normalmente, um ar agressivo potenciador de um semblante pouco apelativo, envolvido numa negatividade para a empatia. Estou convencido que, nem as próprias protagonistas, o que é pena, se aperceberão da sua postura, condicionante de conduta limitadora de uma relação harmoniosa, construtiva e acolhedora. Pior ainda, será quando a consciência desse azedume existe e propositadamente se assume, até para infernizar a vida do próximo e, inerentemente, a própria. O azedume, que faz envelhecer o corpo e a alma, tornando-se um problema permanente, enviesa caminhos e relações, que perturbam a saúde e as emoções, principalmente quando não se aceitam positivas alterações.
Definitivamente, não me agradam azedumes insustentáveis, nem pessoas que se zangam por tudo e por nada. Irradiam energias negativas, potenciadoras de experiências emocionais desagradáveis, como a ansiedade, a mágoa, a tristeza, o medo, a raiva, a inveja, a angústia e o stress. Sendo a azia causadora do desconforto digestivo, também o azedume nas pessoas se tornará desconfortável para elas próprias, o que as torna cinzentas, tristes, amarguradas e infelizes, propagando a negatividade e mal-estar em seu redor, ao mesmo tempo que desenvolvem reações emocionais e alterações físicas que contribuem para o surgimento de doenças, prejudicando o bem-estar físico e psicológico.
 Não obstante todos nós estarmos sujeitos a “pressões” e constrangimentos de diversa ordem, a verdade é que andarmos “azedos”, amargurados e “aguçados”, em nada facilita o fluir positivo da vida. Quando se reage às tensões diárias com negativismos e azedumes, revelam-se, de algum modo, traumas do passado, más experiências de vida ou convições íntimas da personalidade, colocando em causa o posicionamento pessoal, profissional e social.
Ora se estes azedumes, que acabam por ser conflitos internos geradores tensões desagradáveis, que não desaparecem por decreto, torna-se determinante que sejam, em primeiro lugar, entendidos, pessoal e internamente, e, depois, arrumados interiormente, digeridos e resolvidos.
A vontade de sorrir, ser e viver com alegria, cultivando o otimismo e a convivência harmoniosa, renovando o pensamento, sem culpas, mágoas ou cobranças, deve ser muito mais importante do que alimentar azedumes. Valorizar a consciência crítica, tornando-nos contaminadores da positividade, facilitadores dos bons modos e costumes, da alegria e dos sorrisos, será uma boa forma de combatermos os azedumes.