CARLES O CATALÃO

Os que defendem a independência da Catalunha, poderão ser motivados por uma de duas razões. Por uma convicção e desejo genuíno de libertação da suposta dominação castelhana ou por uma questão económica, como muitos garantem ser o verdadeiro motor do movimento separatista. Se for a segunda é uma motivação menor, pouco digna e de fraca sustentabilidade. Nenhuma região é uma ilha e, nos tempos globais que correm, nenhum progresso pode ser atingido de forma isolada. O fulgurante desenvolvimento da província espanhola e o seu sucesso baseia-se em estruturas cuja mobilidade é cada vez maior. A deslocalização da sede de várias empresas catalãs veio sinalizá-lo de forma eloquente. Se esta for a trave-mestra do movimento, por mais forte que seja, facilmente cairá porque as torres em que assenta são amovíveis. Acresce que o argumento histórico perde toda a validade.
Se pelo contrário, o ímpeto independentista tem raízes fundas numa identidade comum e secular, numa genuína vontade de construir um projeto comum e autónomo, não só é muito mais sólido como recolhe, seguramente, maior simpatia e compreensão de todos os que, mesmo sendo alheios, não resistem ao ímpeto romântico, ao canto heróico de um hino libertador. Neste caso não serão os possíveis e previsíveis reveses económicos que o farão soçobrar. Por cada empresa que abandone o território sagrado da nação catalã, outra ou outras se levantarão para a substituir e trilhar com igual denodo e audácia a senda do progresso. A união forte do espírito catalão superará os necessários reveses que o processo separacionista necessariamente arrasta consigo. O povo catalão, se nação, agirá como tal e como tal se levantará como um imparável tsunami que nenhum tribunal central, nenhum poder centralizador, nenhuma lei unificadora poderá conter ou dominar.
Estou certo que é esta segunda motivação que está por trás da mole humana, resoluta e persistente, resiliente e indomável que resistiu nas escolas, que inundou ruas e praças e que levantou em braços os seus dirigentes que personalizam e exprimem os sentimentos que livremente correm no sudeste ibérico.
Só que...
 
Habituámo-nos a ter conhecimento de proclamações de independência, por heróis românticos e valentes, montados em garbosos e alvos cavalos; no cimo de montanhas e de arma em riste; encabeçando enormes multidões, erguendo o punho cerrado; solenemente, num salão nobre perante todos os dignitários; ou gritando numa varanda e aclamados pela urbe embriagada de fervor revolucionário. É verdade que há cada vez menos heróis e cada vez menos românticos, mas...
 
Proclamar a independência e suspendê-la ainda antes do primeiro soluço existencial. Proclamá-la uma segunda vez (não se nasce duas vezes) e abandoná-la nas mãos de terceiros, apelar à resistência e desobediência civil e refugiar-se longe à procura de proteção e segurança... não rima, seguramente, com um movimento que, querendo-se revolucionário e imparável, deveria ser conduzido com coragem e de forma destemida. Se a única motivação é económica, tudo se adequa e, como tal, não irá longe pois o Mercado com a sua “mão invisível” postulada por Adam Smith, se encarregará de arrumar as pretensões no lugar da prateleira da concorrência globalizada. Mas se, pelo contrário, é a alma catalã que se levantou no passado dia 1 de outubro... então há um claro erro de casting. O povo catalão tem de procurar outro(s) líder(es).