Coerência e contradições

Vivemos uma crise de valores, onde a palavra dada, a palavra escrita e a palavra cumprida nem sempre coincidem, o que torna as relações dos sujeitos com as organizações imprevisíveis e cada vez mais complexas. Saliento como exemplos, a crise que se vive no Sporting e a mudança de Governo em Espanha.
Relativamente ao Sporting todos os dias assistimos a acusações e contra-acusações, dos vários órgãos do clube, salientando-se variadíssima informação mediática de difícil entendimento, sobrando, muitas questões, entre as quais: qual é a informação verdadeira e qual é a falsa? Quais são os interesses em causa? Qual vai ser o futuro do Sporting? É urgente que os interesses coletivos se sobreponham aos interesses individuais, e que os artifícios dos regulamentos e das leis ajudem a resolver problemas e não a criá-los ou a alimentá-los.
Não vou discutir as causas que provocaram a situação que se vive no Sporting, ou que condicionou a substituição do Governo em Espanha, apenas salientar que é difícil entender os valores e as razões subjacentes aos problemas que poem em causa muitas organizações e os ideais que as caracterizaram ao longo dos anos.
Para se perceber a queda do Governo em Espanha, cito o jornal Diário de Notícias de 03-06-18, “Apesar de apenas ter 84 dos 350 deputados do parlamento espanhol, os socialistas conseguiram reunir o apoio de um total de 180 votos, que incluem os representantes do Unidos Podemos (Extrema-esquerda, 67), a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC, separatistas, nove), o Partido Democrático e Europeu da Catalunha (PDeCAT, separatistas, oito), o Partido Nacionalista Basco (PNV, cinco), o Compromís (nacionalistas valencianos, quatro), o EH Bildu (separatista basco, dois), e a Nueva Canarias (nacionalista, um). O campo contra a moção contou com 169 votos divididos pelos deputados do PP (134), do Cidadãos (direita liberal, 32), a União do Povo de Navarra (UPN, regional, 2) e o Foro Asturias (regional, 1). O único deputado da Coligação Canária (regional) absteve-se”.
Com esta diversidade de valores e interesses foi possível substituir um Governo por outro, que à partida vai ser vítima dos mesmos problemas, pois 84 deputados são menos do que 134, e as organizações partidárias que se uniram para derrubar não estarão juntas para construir um Governo consistente. Não me parece que quem vem tenha a vida mais fácil do que quem saiu. Assistimos a uma cultura na qual é mais fácil encontrar consensos para destruir, demitir ou boicotar do que que para construir ou viabilizar soluções. Também considero muito estranho, pelo que aconteceu em Espanha, que seja mais fácil e mais rápido mudar um governo num dos países mais importantes da Europa, do que mudar a direção de um clube em Portugal.