COMPORTAMENTOS NADA EXEMPLARES

 
Há dias, quando nos cruzámos com um grupo de crianças nos Passos Perdidos da Assembleia da República (AR), os visitantes que me acompanhavam interrogaram-se sobre o que pensariam estas e outras crianças do comportamento de alguns deputados que se manifestam ruidosamente nas sessões plenárias, não deixando falar os oradores e batendo nos tampos das mesas. Comportamentos presenciados por quem assiste à sessão nas galerias e observados pelos telespetadores, designadamente, pelos que seguem em direto o canal Parlamento.
Eu própria, depois de uma ausência de dez anos no Parlamento Europeu, onde a agressividade verbal é a exceção que confirma a regra, fico perplexa com tais atitudes que degradam a imagem dos representantes do povo e prejudicam um debate de ideias sério e democrático. É quase certo que a histrionia lhes assegura uns breves momentos de visibilidade televisiva, mas também é quase certo que quem vê e ouve percebe que quem mais grita é quem tem menos razão.
Não vou dizer que “no meu tempo é que era”, até porque muitas vezes esses outros tempos, recorrentemente invocados, mais não são do que uma construção subjetiva distante da realidade. E é justo reconhecer que, hoje como ontem, há tribunos de exceção no Parlamento e muitos são os que honram o mandato que lhes foi conferido e prestigiam a instituição.
 Com o novo governo e com o novo presidente da República, a sociedade portuguesa perdeu a crispação acumulada em anos de austeridade inútil. Na casa da democracia, passa-se o contrário. Os partidos da direita tardam em digerir a perda do poder e em perceber que tanto se pode servir o país no governo como na oposição. 
Aqueles que em quatro anos de governo necessitaram de oito orçamentos retificativos, cortaram salários, pensões e apoios sociais, aumentaram os impostos e falharam todas as metas do défice, são os mesmos que agora, na oposição, juraram ser aritmeticamente impossível cumprir um défice inferior a 2,5%, ou mesmo abaixo dos 3%. E são eles que, quando o primeiro-ministro António Costa garante na AR que o défice de 2016 não será superior a 2,3% e que o emprego está a crescer acima de 2% e o desemprego em valores que não se verificavam desde 2009, estrebucham e descarregam a fúria maltratando o mobiliário que têm na frente. A educação que não receberam em crianças e o chá que não beberam ao longo da vida fazem muita falta. Mas nunca é tarde para aprender “que não há uma moral em casa e outra na praça; que não se pode fazer mal para obter o bem, como se mal e bem fossem mercadorias a trocar”, como escreveu Benedetto Croce em Ética e Política.