A opinião de ...

De Marraquexe para onde?

No mundo actual, há cada vez mais pessoas migrantes. A ONU (2017) estima que serão actualmente 258 milhões. Face à crise do Mediterrâneo e aos conflitos na África e no Médio Oriente, o Secretariado para as Migrações da ONU conseguiu fazer aprovar em 13/6/2018 o Pacto Global para uma Migração Segura, Ordenada e Regular (GCM, na sigla em inglês) e agendou para os próximos dias 10 e 11, em Marraquexe, a cimeira de assinatura deste Pacto.
O Pacto é um conjunto de piedosas intenções, que apela para a ajuda, acolhimento e protecção aos migrantes em trânsito e para a sua integração na economia e na sociedade de cada país. Não estabelece nem metas nem calendário. Considera ainda os migrantes como coisa boa, os quais valerão, segundo o relatório, 10% do PIB mundial.
Os princípios do Pacto foram aprovados por 192 países, com excepção dos EUA e com reservas da Hungria. A oito dias da assinatura do Pacto, já se sabe que muitos outros não vão assinar: todos os países do leste Europeu, os EUA e a Austrália, há dúvidas em relação a Espanha; à Grã-Bretanha, por causa do BREXIT; e à Itália. Entre os apoiantes de primeira linha estão o Presidente Francês, a Chanceler Alemã e o Primeiro-Ministro Português, que proclamou solenemente a assinatura e anunciou que Portugal poderia acolher até 75.000 migrantes, sem calendário definido.
Um pacto sem quotas, sem regras e sem respeitar as condições de cada país parece-me inadequado. Além disso, segundo os estudos disponíveis, a população deve ter o máximo possível de homogeneidade cultural e religiosa pacifista. Os laicos (ateus ou agnósticos) são aqui considerados pacifistas. Porém, a França e a Grã-Bretanha (12% e 15% de islâmicos, respectivamente), com os EUA e a Alemanha a aproximarem-se, também através da comunidade islâmica (10%), já quebraram o princípio da homogeneidade religiosa pacifista correndo grandes riscos de conflitos comunitaristas religiosos.
Que os dramas sociais e económicos existem no mundo é uma verdade absoluta. Que temos de ajudar quem precisa é um dever assumido pelos cristãos. O problema é que a ajuda deve proporcionar, primeiro, o desenvolvimento dos países de origem dos migrantes, por mais conflitos que neles existam.
Legitimar e promover uma migração sem limites e sem regras pode vir a revelar-se um suicídio. Aonde é que há recursos nos países ocidentais para mais 30 milhões de migrantes face ao desemprego galopante em consequência da robotização? Querem mandar os autóctones embora? Para onde?
Além disso, dentro de 30 anos, teremos também o problema dos países produtores de petróleo. Que farão as respectivas populações quando o financiamento pelo petróleo acabar, substituído pelas energias alternativas? A pressão para virem para o Ocidente será enorme, com todas as consequências religiosas, civilizacionais e culturais de uma cultura totalitária que não tolera nem o diferente nem a democracia e que não aceita o princípio de que «em Roma, sê Romano».
O mundo não se governa nem com piedosas intenções nem com voluntarismos inconsequentes.

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