A opinião de ...

Ano Novo, Vida Nova

Antes de terminar o ano findo, Portugal foi o convidado de honra da Feira do Livro de Guadalajara, cujo programa foi para lá da apresentação de livros e escritores. Estiveram igualmente músicos, atores e cientistas. A investigadora do Instituto Gulbenkian de Ciência, Paula Duque foi uma das convidadas. Levou-a ao México a exposição do trabalho que tem vindo a realizar e em que se especializou: o estudo das estratégias desenvolvidas pelas plantas para sentir e responder as condições adversas do meio que as rodeia. Esta capacidade tem sido crucial para garantir aos vegetais (que não podem locomever-se) a adaptação in loco que lhes permita subsistirem em situações extremas. A utilidade deste conhecimento ganha relevo nos tempos atuais em que as questões climáticas estão, cada vez mais, em cima da mesa e na agenda política dos dirigentes e decisores. A juntar a isso, o crescimento contínuo da população mundial coloca-nos um desafio enorme que passa pela garantia de produção de alimentos em quantidade e qualidade para alimentar a humanidade. Paula e a sua equipa, usando como modelo uma pequenina erva daninha arabodopsis thaliana tem vindo a identificar e descodificar os mecanismos moleculares que permitem e garantem a resistência à seca, salinidade elevada, falta de nutrientes e ao excesso de compostos tóxicos no solo.
É pois de crucial importância conhecer e desenvolver as estratégias capazes de melhorar a produtividade e a qualidade das culturas agrícolas de forma sustentável, usando a área arável disponível e sem aumentar a degradação ambiental e assim aumentar o combate à fome e à subnutrição. Tal, segundo foi dizer a bióloga, ao México, pode passar por desenvolver plantas mais resistentes à degradação climática e às infeções e ainda, aumentar-lhes o valor nutritivo. Para além destes objetivos, o estudo fundamental dos seres vivos vegetais pode trazer, como bónus, a descoberta de novos medicamentos e bases para a produção de energias renováveis.
Foi isso que os mexicanos quiseram ouvir, de viva voz, da investigadora que foi surpreendida por um cartaz gigante, com a sua fotografia, no exterior de uma escola primária onde, complementarmente se deslocou.

Não me espanta este interesse no longínquo país da América. Estranho que esta preocupação não seja total e global. Com a mesma vontade e determinação com que atravessou o Atlântico, a cientista deslocar-se-á a locais mais próximos, em qualquer local do nosso país. Esteve, aliás, em Bragança onde fez uma conferência no Centro de Ciência Viva, com o apoio da respetiva autarquia. Invulgar foi a constatação do total desinteresse de outros autarcas com o argumento que esse não é um problema de agora nem do seu concelho. Infelizmente é esse o pensamento de muitos dos eleitos que não conseguem lobrigar para lá da duração limitada do seu pequeno mandato.

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3712