A opinião de ...

BORGES NA OFICINA DE GUTENBERG

Jorge Luis Borges associou a famosa Biblioteca descrita nas suas “Ficções” à edificação descrita no Génesis como estando na origem das diferentes linguagens humanas e que muitos historiadores associam ao monumental zigurate mandado ergir por Nabucudonosor II na capital da Babilónia. Estando aí a origem de todas as línguas, faz todo o sentido que o lugar onde se guardam todas as obras literárias tenha exatamente o mesmo nome. Diz o autor que a Biblioteca é composta por “número indefinido e, talvez infinito, de galerias hexagonais...”  De acordo com a sua descrição é efetivamente fabuloso o número de exemplares ali “existente” mas não é infinito por uma simples razão: o argentino, com raízes em Moncorvo, definiu um tamanho padronizado para todas as obras: 410 páginas com 40 linhas de 80 caracteres. “Só” isso impede que o imenso repositório não seja infinito. Então, qualquer livro de 1.312.000 caracteres, escrito ou por escrever está lá.
 
Paradoxalmente, a tipografia de Gutenberg tem um tamanho muito finito e limitado mas ali residem todas as palavras ditas, escritas, imaginadas e as que se irão dizer, inventar ou escrever. Todas elas podem ser impressas na prensa de madeira do inventor germânico. Qualquer uma, sem qualquer restrição. Basta verbalizá-la e os tipos metálicos arranjar-se-ão de forma a dar-lhe forma e vida.
 
Acontece com estes dois paradigmas algo parecido, com as devidas diferenças mas, sobretudo, com as muitas semelhanças, o que se passa com a escultura e com a pintura. Na paleta do pintor estão, potencialmente, todas as pinturas possíveis e imagináveis. “Basta” saber dispôr as tintas com a devida ordem, intensidade e mistura, tal como os cunhos tipográficos da oficina de Mainz.
Por seu lado, num bloco de granito existem todas as estátuas admissíveis... desde que limitadas ao tamanho máximo da pedra... tal como as obras “reveladas” pelo autor de Buenos Aires. O que é necessário é “saber dentificar” a parte útil no meio de tudo o resto que é excedentário. Essa é a “única” dificuldade! Só um verdadeiro artista consegue conduzir o cinzel da forma adequada a que seja separado exata e exclusivamente a parte que interessa.
Contudo.
Programas de Inteligência Artificial vieram, recentemente, mostrar que alguns programas de computador conseguem escrever textos muito semelhantes aos saídos de mentes humanas, tanto assim que, algumas experiências contemporâneas vieram evidenciar a difculdade em distingui-los em função da sua origem.
Igualmente há já quadros pintados exclusivamente por robots e um adequado programa de CNC reproduz qualquer forma a partir de qualquer material.
Pode haver quem duvide que seja possível retirar de uma máquina, por mais sofisticada que esta seja, o sentimento que os bons autores vertem nas suas escritas. Não há forma de escamotear uma situação: a rapidez e eficiência com que as máquinas eletrónicas executam as tarefas para que são programadas, não têm paralelo nos humanos. Aceitemos pois que nenhuma “inteligência” de silício consegue criar uma obra literária. Mas, aceitando igualmente que na Babel em que a Internet se está a transformar, de entre as “toneladas de lixo” existirão muitas “pérolas” valiosas, ninguém como um computador terá a capacidade de as identificar e resgatar... desde que lhe sejam definidos os parâmetros adequados!
 
 

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