A opinião de ...

GUARDA DE HONRA

Sei bem que, mais uma vez me arrisco a contrariar e afrontar a opinião corrente, partilhada por muitos amigos e leitores mas considero, com toda a franqueza, que tal não pode nem deve inibir-me de manifestar o meu parecer quando, como agora, é sincero e alicerçado em fundamentada convicção própria.

Na parte final da frente ribeirinha lisboeta, entre a Torre de Belém e a Fundação Champalimaud, está o Museu do Combatente, instalado no Forte do Bom Sucesso. De vez em quando, quando faz bom tenpo, vou almoçar à Vela Latina e faço esse percurso a pé. É impossível não reparar nem tão pouco deixar de me condoer com o “postal turístico” observado, geralmente, por uma pequena parcela de visitantes: fardados a rigor e em rígida posição vertical, dois soldados fazem guarda-de-honra a duas estruturas triangulares, uma mais pequena, outra de dimensão considerável, perante a quase indiferença dos muitos excursionistas que por ali vêm visitar um dos nossos mais icónicos monumentos manuelinos.
Não posso deixar de me interrogar sobre a lógica e a razão deste, para mim, estranho espetáculo. Dois jovens, no esplendor da sua vida, cheios de energia e potencialidade, são obrigados a passar horas a fio, de pé, imóveis, olhando o vazio e em absoluto silêncio porque, no entender de uns iluminados, determinaram, no conforto dos seus gabinetes, que aquela era a forma adequada e única de honrar a memória dos combatentes!
De tempos a tempos, chega ao terreiro do Forte uma viatura repleta de militares, igualmente fardados a rigor, descem, formam em duas filas, com o correspondente folclore e, seguindo um deles, com uma bandeira adequada, fazem meia-dúzia de manobras, em frente marche, direita volver, sentiiiido, levam os dois que ali se encontravam, deixando outros no seu lugar!

Mesmo sabendo que nos tempos modernos facilmente se pode fazer uma guarda e vigilância de forma mais prática, eficaz e eficiente, não me choca a guarda permanente à entrada da residência do Presidente da República, no Palácio de Belém. Mas a uma estrutura de pedra lioz e bronze? A memória dos que arriscaram a vida nos campos de batalha, não pode ser exibida de outra forma, mais humana, atual e racional? E mais económica, também, porque não são displicentes os custos que são destinados a manifestações deste teor e outras tão ou mais anacrónicas, despropositadas e desproporcionais e que comem uma generosa fatia do Orçamento das Forças Armadas. As tais que, munidas de metralhadoras, misseis, granadas, pistolas automáticas, carros blindados, aviões de combate e elicópetros não conseguem guardar meia-dúzia de armas e juram que a única forma de impedir que caiam em perigosas mãos terroristas foi a claudicação, compromisso e cedência à chantagem de um qualquer pilha-galinhas a quem se sentiram obrigadas a proteger e encobrir...

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3704