A opinião de ...

Os hospitais não são centros de saúde

Aos hospitais acorre quem está doente e, como tal, seria mais acertado chamar-lhe Centros de Doenças e não Centros de Saúde. É para as suas salas de espera que convergem a esmagadora maioria da população quando está enferma, trazendo consigo todo o tipo de moléstias e, com elas, grande variedade e quantidade de agentes patogénicos. É também ali que se aplicam, em maiores doses, nem sempre proporcionais e nas quantidades mínimas exigíveis, os mais diversos antibióticos. Desta combinação resulta o óbvio: é nas unidades hospitalares que primeiro surgem as bactérias multirresistentes capazes de desencadear verdadeiras pandemias com potenciais resultados cada vez mais graves e preocupantes. É bom não esquecer que, para potenciar o malefício, a população mais acessível a estas infeções é composta de seres doentes e, portanto, mais frágeis e muito mais recetivos a estes agentes patogénicos, altamente oportunistas. Os hospitais são, portanto, locais a evitar!

O futuro passa, obviamente, pela hospitalização domiciliária, uma aposta já a ser implementada no Hospital de S. João no Porto (notícia do Jornal o Público de 12 de abril). Que implica a deslocação dos profissionais de saúde, mas não pode ficar por aí. Esta estratégia tem de ir muito além das visitas de médicos e enfermeiros a locais mais remotos. São importantes sem dúvida, mas não só não resolvem tudo como enfermam de alguns inconvenientes que é necessário debelar.

Um velho amigo meu, médico no interior costumava caricaturar as visitas que fazia às aldeias da seguinte forma: “Duas vezes por semana, lá vou eu e uma enfermeira, atender doentes nas freguesias mais distantes. Demoro quase três quartos de hora para lá e outro tanto para cá! Três horas a menos no Centro de Saúde para atender doentes, alguns graves e outros urgente. Lá, na maior parte dos casos, meço a tensão e passo meia dúzia de receitas. Quando regresso é frequente cruzar-me com eles na Praça da Vila junto à Farmácia onde vieram aviar os medicamentos prescritos.” Não deixando de ter razão, este meu amigo “esquecia-se” de dar a devida relevância a alguns aspetos importantes. Nem todas as pessoas das aldeias rurais têm viatura própria, os transportes públicos não são eficientes e muitos têm sérias dificuldades de locomoção. As receitas a aviar na farmácia podem ser encomendadas todas a uma única pessoa, ao contrário das consultas médicas. Mas isso não lhe tira a razão do enfoque que dá à necessidade de compatibilizar estas medidas com a obrigatória rentabilidade do recurso mais escasso e precioso do SNS: o profissional de saúde.
A assistência médica dos tempos vindouros não pode limitar-se a enviar médicos e enfermeiros numa viatura. É necessário que com eles viaje uma extensão do próprio hospital. E que, em grande parte dos casos, não regresse – fique lá a apoiar os doentes de forma eficaz e competente.

A tecnologia atual, quer ao nível da eletrónica, quer ao nível das telecomunicações permite-o em todo o país e a preços cada vez mais acessíveis, mesmo nas regiões mais recônditas. Haja vontade e engenho!

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