Nos cem anos da revolução bolchevique russa

 
Ocorreu no passado dia 25 de Outubro de 2017, a efeméride do ano cem sobre a revolução bolchevique, liderada por Vladimir Ilyich Ulyanov (Lenine)
Esta revolução foi assinalada em Portugal por toda a imprensa e, em alguma dela, com grande qualidade. Com ela, pretendeu-se pôr em prática a teoria política do socialismo de Marx & Engels, definido como fase de transição entre o capitalismo e o comunismo, e inspirado na experiência da Comuna de Paris (1871), onde os contributos do cooperativismo de Robert Owen e do colectivismo de Saint-Simon se cruzaram.
O comunismo seria a última fase da evolução histórica, caracterizada teoricamente pela propriedade colectiva dos meios de subsistência e de produção, pela irmandade e cooperação entre os homens, pela ausência de classes sociais e pela equidade na distribuição de recursos. Na perspectiva dos defensores do socialismo soviético, o modelo falhou porque não foi correctamente implementado na direcção do comunismo. Nesta perspectiva ainda, a experiência socialista soviética não foi perfeita porque não conseguiu resistir aos seus detractores e aos seus adversários, escamoteando os erros, os excessos e as contradições internas da constituição do estado socialista soviético.
Hoje, já é possível um conhecimento profundo da experiência soviética. E o que se conhece evidencia uma incapacidade total para lidar com o pensamento diferente e com as concepções sociais e práticas económicas diferentes. O estado socialista foi construído na base do derramamento de sangue e da eliminação de todas as oposições internas à força gerando a apatia e a anuência a um pensamento único, negando qualquer liberdade de pensamento e de expressão diferente. Foi a concretização das ideias do Manifesto do Partido Comunista, segundo as quais não era possível mudar a economia e a sociedade por via reformista mas tão só pela via da eliminação dos detentores da riqueza e da economia e, em consequência, produtores da ideologia da desigualdade de classes e da administração burocrática ao serviço dos mais poderosos.
Assim, foi eliminado um terço da população russa, toda aquela que se lhes opôs, por motivos vários, e oriunda de vários sectores económicos, sociais, culturais e religiosos. O consulado de Josef Vissariónovitch Stalin (1922-1953) arrasaria por completo as últimas bolsas de resistência e instauraria a economia planificada pela qual tudo era legítimo desde que para cumprir os planos do Estado e do Partido: mortes em massa, deportações, deslocações massivas de população, execuções públicas. Argumentava-se que tal era necessário para garantir o cumprimento do programa de passagem ao comunismo, onde todos seriam iguais e estava abolida a exploração do homem pelo homem mas era permitida a exploração dos subordinados pelo «chefe», através de castigos vários, dos quais os mais graves foram as deportações, o envio para os gulags (campos de prisioneiros na Sibéria) e a execução.
Como evidenciaram Cornelius Castoriadis e Claude Lefort, no fim de contas, a ideologia que prometia a utopia da igualdade produziu um monstro baseado no sistema de castas dentro do aparelho burocrático e político. Ao abolir a propriedade privada, o socialismo soviético aboliu a alma do progresso da humanidade pela motivação para o trabalho e para o empreendedorismo. E o império acabou em 1989 deixando campo livre ao expansionismo do seu contrário, o capitalismo, carecido agora de um novo contrário para se humanizar. Ironicamente, a consciência desta necessidade será o único contributo genericamente partilhado como válido oriundo da experiência socialista soviética.