O Poder – Dois exemplos

Mal me sentei no Café para tomar uma bica, já diante de mim se perfilava a figura carismática dum amigo de longa data que há uns tempos não via. Convidei-o a sentar-se e imediatamente me pôs a par da última novidade.
Foi o caso desse meu amigo ter sido eleito Presidente do Clube de Futebol lá do Bairro – um discreto clube da terceira divisão da distrital que a melhor classificação conseguida foi o penúltimo lugar.
Sem dinheiro para camisolas e calções – chuteiras nem se fala! – o campo de jogo pelado e com balizas feitas de toscos barrotes de madeira, tem sobrevivido graças à ajuda de um ricaço do bairro que, muito a custo lhe tem arrancado uns míseros euros, com a contrapartida de lhe ser autorizada a exploração do bar nos dias de jogo, aumentando, deste modo, os dinheiros da magríssima soma das quotas dos sócios. E assim se fez, desde que o clube é clube, fundado há poucos anos por um grupo de amigos com a bênção e o apoio do pároco, a tentar desviar a rapaziada dos maus hábitos. Passado o entusiasmo que sempre preside a estas iniciativas, começaram a surgir os problemas do costume. É que o dinheiro não dava para nada e cada vez mais o clube se afogava nas sentidas necessidades e nas angústias das dívidas, enquanto o autoconsiderado “mecenas” ia limpando a caixa dos dinheiros, segundo diziam, com algum proveito.
Falava-se,,, mas ninguém lhe queria fazer frente - grande comerciante que sempre dava algum trabalho ao pessoal.
O treinador era prata da casa e treinava sem nada receber.
Até que um dia houve eleições e este meu amigo foi eleito Presidente do Clube, começando imediatamente a trabalhar.
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Contou-me mais tarde que, na primeira reunião com a Direção, fez ver como estavam a ser enganados. E dando um murro na mesa, afirmou que com ele na presidência as coisas tinham de mudar.
Imediatamente houve reações com medo de retaliação da parte do ricaço. Mas o meu amigo, puxando dos seus galões como Presidente, continuou com firmeza, sem fazer caso daqueles receios.
Em primeiro lugar, propôs para breve uma assembleia de sócios, na qual, sem direito a perguntas, (mesmo dos jornalistas que eventualmente estivessem presentes), os informaria do projeto que seguidamente explicou e que a Direção aprovou por unanimidade - o qual de certeza iria salvar o clube e fazê-lo ascender a lugares mais altos na tabela.
Depois iriam dizer ao ricaço que já não precisavam da sua ajuda e que o bar iria ser explorado pelo clube.
O projeto, que não consigo reproduzir em pormenor, foi totalmente posto em prática. Porque ninguém me contou, não sei o que disseram ao “mecenas” e qual a sua reação. Mas sei que é no bar que o pessoal do Bairro se reúne em alegre convívio, assistindo entusiasticamente a jogos pela televisão. E o clube, razoavelmente apetrechado, é o melhor da Distrital, estando em vias de ascender à terceira Divisão nacional.
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No filme “A Lista de Schindler”, o comandante, (soberanamente corrupto), do gueto de Cracóvia, Amon Goth, tinha o poder de vida e de morte sobre os judeus que aí foram obrigados a viver; e algumas vezes, descontraía-se a matar, da sua varanda, com uma espingarda de precisão, um e outro infeliz que escolhia naquele povo humilhado e desgraçado – desumanamente sujeito a trabalhos forçados, no largo que lhe ficava em frente.
Quando a guerra acabou, deixou de ter poder e foi executado pelos vencedores!