«Onde moras?»

 
É a partir desta a pergunta – «onde moras?» – que nasce e se desenvolve o encontro vital com o ‘desconhecido’ Jesus de Nazaré. André inquietado pelas palavras de João, o Baptista, busca o seu irmão Simão revelando-lhe, a partir da afirmação de João, o que há muito o seu coração ansiava por ouvir. Acabara de encontrar o Messias. Não o guarda só para si; busca por aquele que lhe é importante – por Simão, seu irmão – e partilha com ele a alegria ardente da descoberta do Dom, do Messias, do Cristo. Como acontece com cada um de nós, as notícias e os acontecimentos são muito importantes, não conseguimos guardá-las só para nós. Antes, somos intimamente impelidos a comunicar a quem mais nos importa estas boas novas. Também o mesmo acontece com André que o leva de imediato procurar o seu irmão Simão e partilhar esta boa nova com ele. É a grande notícia!  No entanto, André duvida. Por isso, questiona-O: «Mestre, onde moras?» (Jo 1, 38). Desta pergunta nasce o vital e o fundante encontro, ou sejam o lugar da descoberta e do reconhecimento do Tu e do eu.
Na verdade, o encontro é sempre gerador de partilha e de relação. Ao convite do tu, do outro que se aproxima de mim, eu sou, por iniciativa dele, convidado a entrar no tabernáculo da sua existência, no interior do seu templo, no tesouro do seu coração. A partir de agora já não sou um qualquer! Eu sou escolhido! A escolha é sempre dom que brota da confiança e do amor. Aquele que confia, e logo ama – não há amor sem confiança, pois amar e confiar pressupõe-se mutuamente, são a única e mesma realidade –, abre-se-me como um tesouro a explorar, a conhecer, a descobrir. Não se dá para ser minha posse. Dá-se para que eu seja mais eu, ou seja, é no encontro com Deus, com o tu e com o irmão que me descubro e me reencontro com a minha história, com a minha própria missão e vocação. O encontro é, deste modo, espaço de re-conhecimento e de descoberta do dom e do Dador do dom.
Entrar em casa de alguém é entrar sempre como convidado. Esta proposição ôntica desvela o melhor que há em casa, o melhor que há no coração de cada um. Logo, somos convidados; e, porque somos convidados, somos escolhidos por aquele que se abre a mim. É o dom que encarna em nós na doação terna e confiada do tu! E por isso, sentimo-nos especiais porque fomos e somos escolhidos. Portanto, não tenhamos medo de nos encontramos com o Dador do dom, com aquele que nos diz: «vinde e vede» (Jo 1, 39). Não tenhamos medo de sermos escolhidos, de nos tornarmos especiais, de sentirmos infinitamente amados. Nesta Quaresma seja porta aberta para o encontro. Não tema dar-se!