Parada Gay: A Opinião (Aparentemente) Suspeita dum Hétero

Após a confirmação “oficial” da realização da Parada Gay em Bragança, uma pessoa minha conhecida perguntou-me se não ia escrever nada sobre o assunto. Tratando-se de um tema “fracturante” – cujo interesse mediático rivalizava, no momento, com o empolgante caso Bruno de Carvalho/ Sporting-, não podia deixar de dar o meu modesto contributo para a discussão.
Por culpa dum certo jornalismo adepto do sensacionalismo, de histórias do velho e do burro, de sangue e da desgraça, foi criada a falsa e torpe ideia de que este povo bragançano parou civilizacionalmente no tempo. Tal crença alimentou, naturalmente, uma grande expectativa na opinião pública em relação ao comportamento dos nativos deste pequeno pedaço do “país real”, face ao evento do pretérito dia 19 de Maio.
Sendo nós conhecidos por gente de bem, solidários, hospitaleiros e de um assinalável sentido de urbanidade e de inclusão, só por razões extraordinárias os visitantes deixariam de ser bem recebidos e o “convívio” intolerável. O que retenho da comunidade gay, em termos de comportamento, é que não é dada a violências, não incendeiam carros, não partem montras nem assaltam lojas, não lançam bombas. Parece que o único “crime” é “exibir” a sua sexualidade, que, aos olhos duma larga maioria dos anfitriões, pelo reconhecimento da falta de autoridade moral para julgar o Outro, não é tipificado como tal.
Não tendo presenciado o desfile, por, simplesmente, não ser atraído por este género de espectáculos (sem qualquer preconceito), nem atreito a vouyerismos, fiquei a saber que tudo tinha corrido dentro da normalidade – apesar do contributo incendiário de certos pirómanos nas redes sociais. Perante o desfecho, que não poderia ser outro, ficou claro que as mulheres que “vestem de preto, usam lenço na cabeça, com barba, e os homens feios e desdentados”, podem ter a mente tão aberta e serem tão tolerantes quanto os seus concidadãos do “país irreal”.
Embora possa parecer descontextualizado, julgo pertinente reproduzir aqui, em relação ao tema, as palavras dos meus prezados vizinhos da rua Dr. Adrião Amado e da Acácio Mariano: “ Ainda bem que a marcha não passou à nossa porta!” “Da maneira como estão os passeios, além da vergonha, ainda se magoava alguém a sério!”
Importa dizer, pois, para concluir, que Bragança não se pode dar ao luxo de desperdiçar este tipo de iniciativas, independentemente da sua natureza, do propósito e de quem as integra. São elas que arrastam, mobilizam e atraem pessoas à cidade, que incluem e enriquecem o espaço de convívio e da multiculturalidade – obviamente, com assinaláveis reflexos para a economia local.
Nota de rodapé: Não tenho especial fascínio pelas lutas de touros nem pelas concentrações motards. No entanto, reconheço a extrema importância destas duas componentes do espectáculo/diversão, no contexto das festividades. Esta minha condição de “não partidário” não pode fazer de mim, em nenhuma circunstância, “motofóbico” ou “tourofóbico”.