A opinião de ...

O segredo que deu notícia

Há segredos que são muito mal guardados. E depois admiram-se que eles sejam divulgados na praça pública. Já há meses que se comentava, sobretudo entre o clero de Lisboa e vários organismos do Patriarcado, que as Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) de 2022 seriam em Portugal. O anúncio da ida do Presidente da República, Mar-celo Rebelo de Sousa, às JMJ no Panamá, em janeiro próximo, veio, eventualmente sem querer, confirmar o que já circulava em surdina pelo país.
Bem avisou Jesus os seus discípulos ao dizer-lhes: “Acautelai-vos do fermento dos fariseus, que é a hipocrisia. Nada há encoberto que não venha a descobrir-se, nem oculto que não venha a conhecer-se. Porque tudo quanto tiverdes dito nas trevas há-de ouvir-se em plena luz, e o que tiverdes dito ao ouvido, em lugares retirados, será pro-clamado sobre os terraços” (Lc. 12, 1-3).
Os jornalistas António Marujo (do blogue Religionline) e Joaquim Franco (da SIC), que bem conhecem a Igreja em Portugal, limitaram-se a fazer com mestria o seu trabalho. Souberam, como tanta outra gente, que o Patriarca manifestou ao Papa Fran-cisco a disponibilidade de Lisboa para acolher as próximas JMJ. Ouviram aqueles que, apesar de a notícia ainda não ser pública, se regozijavam por o Papa vir a Lisboa. E, portanto, interpretaram a deslocação do Presidente da República ao Panamá como uma confirmação do que já era dado como certo em vastos sectores eclesiásticos. Procuraram confirmar essa informação e deram a notícia que as JMJ, em 2022, serão em Portugal.
Se alguém falhou, não foram, seguramente, os jornalistas. Se isto nunca aconteceu noutro país, como referiu o Pe. Manuel Barbosa, porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, ao JN, então é porque alguém não respeitou o sigilo. Se alguns responsáveis da Igreja Católica em Portugal estão incomodados com a divulgação da notícia não de-vem, por isso, orientar a sua indignação contra os jornalistas, que se limitaram a fazer o seu trabalho. Devem, isso sim, censurar aqueles que a disseminaram.
Os clérigos estão habituados a guardar o segredo da confissão. Não se conhecem muitas violações desse sigilo sacramental, até porque elas são duramente punidas pelo Código de Direito Canónico. É isso que leva os fiéis a terem uma maior confiança no confessor do que em muitos outros, também sujeitos a um sigilo profissional.
Há, porém, outros segredos na Igreja que mereceriam o mesmo tratamento, mas que acabam por ser tornados públicos. Veja-se o que acontece com os conclaves, ou com o processo de nomeação dos bispos: muita informação acaba por vir a público. Ao ponto de entre clérigos se dizer, com ironia, que o segredo pontifício é aquele que todos sabem, menos o Papa. Ou como já ouvi: “Não posso dizer porque não me pediram segredo pontifício”.
As pessoas com responsabilidades na Igreja não se podem esquecer que exercem a sua atividade num mundo em acelerada mediatização, em que a informação circula velozmente. Por isso, toda aquela que se quer manter reservada, só pode ser confiada a um número bem restrito. Têm, também, de aprender a gerir as fugas de informação e a não publicitarem o seu descontentamento por jornalistas as divulgarem. Há coisas que só se conseguem prevenindo.

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