A opinião de ...

Uma Quaresma vivida para lá da rotina

O Papa Francisco recorda-nos, na mensagem para a vivência da Quaresma deste ano, que “a ‘quaresma’ do Filho de Deus consistiu em entrar no deserto da criação para fazê-la voltar a ser aquele jardim da comunhão com Deus que era antes do pecado das origens”.
Na referida mensagem, o Papa propõe a sua releitura das atitudes tradicionais propostas pela Igreja para a vivência da Quaresma: o jejum, a oração e a esmola. Estas deverão ter como finalidade última a atenção aos outros e à Criação. “Jejuar, isto é, aprender a modificar a nossa atitude para com os outros e as criaturas: passar da tentação de ‘devorar’ tudo para satisfazer a nossa voracidade, à capacidade de sofrer por amor, o qual pode preencher o vazio do nosso coração. Orar, para saber renunciar à idolatria e à autossuficiência do nosso eu – e nos declararmos necessitados do Senhor e da sua misericórdia. Dar esmola, para sair da insensatez de viver e acumular tudo para nós mesmos, com a ilusão de assegurarmos um futuro que não nos pertence. E, assim, reencontrar a alegria do projeto que Deus colocou na Criação e no nosso coração: o projeto de amá-Lo a Ele, aos nossos irmãos e ao mundo inteiro, encontrando neste amor a verdadeira felicidade”, diz o Papa.
A Quaresma, este tempo privilegiado de preparação para a Páscoa, iniciou-se ontem. Na liturgia marca-se o seu início com o rito penitencial da imposição das cinzas. O tempo quaresmal pode ser desperdiçado se for vivido apenas com a preocupação de observar o que está prescrito. De nada serve fazer jejum, na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa, ou abster-se de comer carne nas sextas da Quaresma, se esses gestos não forem acompanhados por uma mudança de vida na relação com os outros e até com a Criação.
Já antes de Cristo, no Antigo Testamento, aparece um Deus “enojado” com o cumprimento ritualista das práticas penitenciais. Logo no início do Livro do Profeta Isaías são denunciadas as práticas rituais estéreis do povo, a quem Deus diz: “Lavai-vos, purificai-vos, tirai da frente dos meus olhos a malícia das vossas ações. Cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem; procurai o que é justo, socorrei os oprimidos, fazei justiça aos órfãos, defendei as viúvas” (Is. 1, 16-17). Em relação ao jejum, diz Deus no mesmo livro: “O jejum que me agrada é este: libertar os que foram presos injustamente, livrá-los do jugo que levam às costas, pôr em liberdade os oprimidos, quebrar toda a espécie de opressão, repartir o teu pão com os esfomeados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e não desprezar o teu irmão” (Is. 58, 6-7).
O Papa, na mensagem deste ano, para além de colocar os outros no horizonte das práticas quaresmais, introduz, também, o cuidado com a criação, na linha do que já tinha escrito e defendido na encíclica “Laudato si’”.
A conversão quaresmal implica igualmente uma maior atenção ao ambiente. Passa também por uma mudança de comportamentos e de hábitos que não tenham o devido respeito pela Criação. Dessa forma, o jejum e a abstinência serão mais agradáveis a Deus do que a mera mortificação individual. De pouco vale uma tradição estéril que não tem em consideração os outros nem o cuidado pela casa comum que é a Criação

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