A opinião de ...

Fraternidade humana

A 13 de março de 2013 o papa Francisco, na sua primeira saudação pública, pediu orações para que em todo o mundo existisse «uma grande fraternidade». A polifonia da fraternidade consegue-se a partir do encontro e do diálogo entre a diversidade de povos, culturas e religiões. Daí que os muros existam para serem deitados abaixo. Antes de mais pela oração, que reata a relação com Deus e, se verdadeira, não aliena da realidade, antes acorda para ela e leva o crente a discernir novos modos de colaborar com Deus na construção da história.

Uma ação significativa no incentivo à fraternidade humana, certamente gerada na oração, saiu da recente viagem apostólica do papa Francisco aos Emirados Árabes Unidos. Nela o papa e o grão-imã de Al-Azhar, Ahamad al-Tayyib, assinam conjuntamente o documento «Fraternidade Humana pela Paz Mundial e a Convivência Comum». É um texto que se dirige a todos os que trazem no coração a fé em Deus e na fraternidade entre os homens. Nele formula-se o desejo de consolidar em todos, sobretudo nas gerações mais jovens, a cultura do respeito mútuo. É uma forma eloquente de concretizar o diálogo entre o Cristianismo e o Islão, precisamente 800 anos depois do encontro entre São Francisco e o sultão do Egipto Melek-el-Kamel no mês de junho de 1219 em Damieta. Uma bela página que mesmo na historiografia convida a abater muros ideológicos.

Trata-se de um documento performativo, este assinado pelo papa e pelo grão-imã. Realiza em si mesmo o que propõe, ou seja, «adotar a cultura do diálogo como caminho; a colaboração comum como conduta; o conhecimento mútuo como método e critério».

Particularmente simbólica, neste texto, é a declaração de que as religiões nunca incitam à guerra. Tocou-me o pedido para que se acabe com o uso indevido da religião. Na verdade, estou convicto que a instrumentalização da religião é semelhante à instrumentalização da história: simplesmente perigosíssima.
Por isso, uma religião não instrumentalizada deixa transparecer a sua natural vocação a promover a paz e o encontro. Faz divisar o estrangeiro não já como ocasião de medo mas como portador da multiforme semelhança divina. Como aquele que se avizinha trazendo a aurora da fraternidade e a oportunidade para amadurecer a fé que leva «o crente a ver no outro um irmão» a apoiar.

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3718