SARAMPO

 
Sarampo, sarampelo, sete vezes vem ao pêlo”  é um antigo provérbio popular que julgava ter caído no esquecimento pelo simples facto de que o sarampo deveria ser, nos tempos correntes, uma enfermidade totalmente controlada, sem a mínima hipótese de atormentar qualquer paciente e, contudo, recentemente fomos surpreendidos por notícias de um surto que vitimou várias pessoas no nosso país. A erradicação do sarampo era dada como certa devido a um largo, contínuo e sistemático programa de vacinação levado a cabo ao longo de vários anos, cujos resultados teriam permitdo às autoridades a suspendê-lo “por desnecessário”. Contudo o sucesso da campanha teria sido “sabotado” e só agora vieram à tona as consequências que estão à vista. É bom referir que o recurso a vacinas para prevenir doenças não foi uma tarefa trivial e de fácil aceitação. Foi necessário vencer a resistência, mais ou menos esperada, de vastas camadas de populações sujeitas a superstições e outros escolhos próprios do seu generalizado atraso sociocultural. Ao trabalho de médicos e decisores juntou-se o êxito das ações levadas a cabo e foi assim que se chegou à presunção que originou a suspensão referida. Ora, paradoxalmente, o que veio a ameaçar desbaratar o capital acumulado contra a doença vem, não da ingnorância, subdesenvolvimento e pobreza, mas de uma suposta elite de iluminados que “cultiva” o obscurantismo egoísta e anti-social.
 
Sinais deste tempo que vivemos. Sucessos recentes da investigação pareciam ter-nos elevado a uma plataforma de segurança que afinal não é assim tão segura e que, pelo contrário, se nada for feito, remete‑nos para níveis inferiores de proteção. Tal como uma guerra não se pode considerar ganha pela vitória numa ou várias batalhas pois não se pode menosprezar a expectável reação do inimigo, também na saúde é assim e os agentes patogénicos que as provocam têm afinal uma capacidade de reação e adaptação mil vezes superior àquela que era suposta, como recentemente o provou a investigadora Isabel Gordo do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC). Os trabalhos da cientista não só nos alertam para essa realidade como, em colaboração com Karina Xavier, igualmente do IGC, estão a usar esse conhecimento para lançarem os fundamentos científicos que irão estar na base da nova geração de antibióticos. Contudo, enquanto tal não acontece (quem conhece estas andanças sabe bem a enormidade de tempo que decorre entre uma descoberta e a sua aplicação prática, para desespero dos doentes e agentes de saúde) é importante restringir ao máximo as possibilidades e capacidades dos “opositores”. O mau uso dos antibióticos é a principal razão para o surgimente e desenvolvimento das superbactérias que nos estão a arrastar para uma era em que pequenos ferimentos e infeções comuns, que há bem pouco tempo eram facilmente tratáveis, podem ser motivo de grandes doenças e mesmo matar. O uso adequado passa não só pela observação rigorosa da prescrição médica, mas também é necessário que esta contemple, com rigor, as doses mais adequadas. A matemática Erida Gjini, também do mesmo instituto, desenvolveu um trabalho relevante e internacionalmente reconhecido sobre este tema e a aprimorar o modelo que permitirá otimizar as doses a serem entregues aos doentes da melhor forma e mais segura. É grande a esperança depositada nestes trabalhos, entre outros para o sucesso do combate futuro a doenças e infeções.
 
Poderá haver quem não entenda o investimento feito em investigação fundamental. Isto demonstra uma preocupação com o curto prazo no interesse público e essa é uma das maiores pechas do poder político, a todos os níveis! Localmente seria, certamente, agradável ver crescer o orçamento para os investimentos locais. Mas de que serve ter mais uma ou duas rotundas se uma qualquer epidemia de sarampo liquidar, em três tempos, a maioria dos seus potenciais utentes?