As Eleições Legislativas de 2019
Apesar de estas terem sido umas eleições com um desfecho mais ou menos anunciado, vale a pena sublinhar os aspectos que, sem obedecer a uma estrita ordem de importância, merecem, do meu ponto de vista, ser cotejados:
Apesar de estas terem sido umas eleições com um desfecho mais ou menos anunciado, vale a pena sublinhar os aspectos que, sem obedecer a uma estrita ordem de importância, merecem, do meu ponto de vista, ser cotejados:
Confesso a minha indignação perante o despudor e a falta de carácter e de consciência cívica destes arautos de poderes, que roçam o truque mafioso e que com uma arrogância indescritível dizem que não pagam porque eles, pessoalmente, não devem nada.
Foi com particular desgosto ver um amigo de longa data, precisamente 42 anos de amizade, ser encarcerado na prisão de Évora sob a condenação de três crimes por tráfico de influência.
Vivemos um tempo de profunda descrença nas instituições e em quem as lidera. A causa pública, ode da mais puritana e nobre missão, tem vindo a ser pervertida por um jogo de interesses onde a promiscuidade se sobrepõe aos valores fundamentais da democracia e da ética republicana.
No último dia de cada ano manda a tradição que se façam festas em honra do ano novo pedindo aquilo que, na maioria dos casos, depende de todos e de muito poucos (paz, erradicação da pobreza, saúde e, em geral, felicidade).
Tornou-se um lugar comum dizer que o mundo está perigoso e que o paradigma da desigualdade tem agravado as tensões e a iminência de conflitos de proporções cada vez mais trágicos.
O país tem vindo a assistir a um dos mais insólitos episódios político-financeiros com a nomeação do Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos (CGD).
O banco público foi, infelizmente, palco de interesses político-partidários que desvirtuaram a essência da sua natureza e fragilizaram a sua capacidade de intervenção como estabilizador do sistema financeiro e garante do suporte estratégico para o desenvolvimento de projetos estruturantes e capazes de ter um efeito indutor na economia portuguesa.
Vivemos um tempo onde a vertigem dos acontecimentos deixa pouco espaço para uma reflexão cuidada e que sustente uma visão estratégica a prazo. O mundo, e naturalmente a Europa, são governados por poderes ocultos, não escrutináveis, que têm destruído equilíbrios absolutamente fundamentais que vão do ambiente à economia e da demografia à coesão social. O dinheiro, e o poder que incorpora, está sob a alçada de um punhado de “gigantes” que amedrontam e condicionam a vida das sociedades e dos povos.
Confesso a minha estupefação ao ter sido surpreendido pela notícia radiofónica da detenção de José Sócrates e, antes de ouvir mais nada, veio-me à memória a possibilidade de, num acto tresloucado, ter assassinado alguém. Segundos depois percebi que, afinal, à hora marcada, magistrados, polícias, televisões, jornais e rádios aguardavam ansiosos a chegada do avião em que José Sócrates viajava de Paris para Lisboa para o deterem para um interrogatório sobre matérias sobre as quais não havia indícios de “crime de sangue” nem de flagrante delito grave.
Confesso que desde há bastante tempo tenho sido desconfortado com esta sensação tão desanimadora de não sentir qualquer estímulo para a intervenção política. A degradação da qualidade da democracia, o abandono dos melhores e mais competentes da militância partidária, a ascensão às lideranças dos partidos do arco da governação de pessoas que são o produto dos “aparelhos partidários”, o domínio dos partidos por lógicas de aparelho que afastam os cidadãos da intervenção política, tudo isso me fez afastar do entusiasmo com que durante toda a minha vida intervim na política partidária.