Adriano Moreira

O PAPA FRANCISCO

Tenho insistido num facto, que me parece ter merecido pouca atenção, e que se traduz em, por cinco vezes, o Papa, então em exercício, ter sido convidado para se dirigir à Assembleia Geral da ONU, o que não aconteceu, que pelo menos tenha notado, com qualquer outro líder religioso.

A evolução da desordem

Já foi dito que o mundo está ameaçado ao mesmo tempo pela ordem e pela desordem, parecendo significar que nem a ordem normativa internacional global é obedecida, até pelos membros do Conselho de Segurança da ONU; nem pelos que, considerando-se apenas parcialmente libertados pela descolonização do fim da segunda guerra mundial, encontram na violência, agravada pela capacidade que a tecnologia forneceu de o fraco vencer o forte, o caminha da não obediência às leis vigentes, alguns procurando obter outras leis, outros aparentemente considerando satisfatória uma anarquia enquanto dure.

UM DESASTRE GLOBAL

Depois da Segunda Guerra Mundial, houve espíritos suficientemente alertados para a necessidade de organizar uma ordem que não permitisse a repetição das catástrofes que por duas vezes, na mesma geração, atingiram a totalidade do globo. As circunstâncias que estamos a viver lembram não apenas a necessidade de reler os projetistas da paz, muitos sem experiência de governo, mas bons observadores dos factos, outros envolvidos nos conflitos como foi o caso de Goethe na batalha de Valmy, sendo mais impressionantes os que participaram na governação obrigada aos combates.

PRESERVAR AS INSTITUIÇÕES

Começarei este texto, na época da celebração de uma instituição secular, que exige atenção de quem ainda tenha nascido e criado num ambiente europeu de amor ao seu País e ao seu Povo, e guardado a veneração por conceitos como Pátria, Nação, Fronteiras sagradas, Heróis, Descobridores, como o Clube Militar Naval, e que, quando descurados, ganham debilidade como elos seguros da história legada aos vivos, e guardando a veneração aos mortos, porque a comunidade é de homens e instituições, lembrando um comentário da obra de Roger Crowley, intitulada Conquistadores (2015).

A DIGNIDADE E O PODER

A questão da igual dignidade das Nações, que não evolucionou articuladamente com a igualdade dos cidadãos mais demorada, também se defrontou com a desigualdade hierárquica das potências, que repetidamente a violou. Durante um longo período da história política, com destaque para a ocidental, o tema da hierarquia das potências era o dominante, com reflexos por exemplo na organização internacional da Europa a que a paz de 1918, com o estatuto da Sociedade das Nações, colocou um ponto final: Império Alemão, Império Austro-húngaro, Império Russo, Império Turco.

A PROEMINÊNCIA ATLÂNTICA

Não apenas a intervenção definitiva na II Guerra Mundial, mas a condução firme e recompensada na Guerra Fria, permitiu a Henry Kissinger (Dear Henry), no início deste Milénio (2001), escrever, no seu Does America Need A Foreign Policy?, o seguinte: “Na aurora no novo milénio, os Estados Unidos gozam de uma proeminência que nunca foi igualada, mesmo pelos maiores impérios do passado. Do armamento ao espírito de empresa, da ciência à tecnologia, da educação superior à cultura popular, a América exerce um ascendente sem paralelo sobre o planeta”.

GLOBALISMO E PEQUENAS NAÇÕES

A cadeia de problemas que vai modificando a agenda do globalismo encontrou na questão da relação do Reino Unido com a União Europeia o desafio das chamadas Pequenas Nações. A designação precisa de esclarecimento porque algumas das unidades que a análise e o debate incluem na temática não possuem dimensões populacional, territorial, e económica, inferiores a alguns dos Estados independentes.

A MAIORIA DESERDADA

Quando Josué de Castro obrigou a concentrar as atenções de todos os responsáveis sobre a geografia da fome, sem distinção entre povos separados pelo Muro de Berlim, não foi animado de um espírito de derrotismo, mas com esperança de que a solução do flagelo levasse à mobilização contra a realidade inquietante.

A PRIVATIZAÇÃO DA DESORDEM

Duas calamidades atingem hoje, com êxito financeiro, o que foram pressupostos da Carta da ONU e da Declaração de Direitos, e que são a privatização da guerra e a organização das migrações que afligem os governos do destino e fazem do Mediterrânio um cemitério. É de admitir a hipótese de haver alguma relação entre motores empresariais ilícitos de tais catástrofes, mas a realidade não precisa de hipóteses porque a evidência é gritante.

A guerra

Talvez a guerra mais ameaçadora em curso seja aquela que foi benignamente chamada “construção de um movimento para a justiça climática”, em que se distinguiram duas organizações não governamentais, a Climate Action Network e a Climate Justiçe Now, cuja arma principal foi pressionar os governos, baseados na conclusão de que “as crises económica, financeira, e climática, estão intimamente ligadas”. Estávamos a viver as inquietações que animaram a Conferência de Copenhague, que decorreu de 7 a 18 de Dezembro de 2009, no quadro da Convenção da ONU sobre as alterações climáticas.