A opinião de ...

Os pobres morrem mais cedo (1)

O fim da guerra de 1939-1945 foi anunciado por um jornal francês como – “esta alegria coberta de lágrimas”. Mas a esperança envolvida e que encontrou agentes políticos europeus que assumiram o objetivo do “nunca mais”, que criaram sobre esse alicerce a ONU e proclamaram a Declaração Universal de Direitos, que ouviram, vindos do Terceiro Mundo libertado do colonialismo, as vozes e ação tocadas de santidade, de Mandela e Gandy, não previram a surpreendente anarquia do século em que nos encontramos: o globo transformado numa arena global, com as novas guerras que Dominique Vidal identificou “nos quatro cantos do mundo” (2015), concluindo que “estas novas guerras contribuíram em primeiro lugar para as situações de crises sociais agudas vividas pelas sociedades atingidas”. Isso conduziu-nos a diagnosticar, seguindo o muçulmano Amin Maalouf, com o seu El desajuste del mundo – Cuando nuestras civilizaciones se agotan (Madrid, 2009), alertando para que “todos quantos vivemos este estranho começo de século temos o dever – e, mais que todas as gerações anteriores, os meios – de contribuir para essa empresa de salvação; com sensatez, com lucidez, mas também com paixão e inclusivamente, por vezes, com ira”. Os diagnósticos são variados quanto à circunstância que nos aconteceu, mas a urgência da busca de alternativas para regressar a “uma vida habitual”, isto é, com paz e esperança, desencadeou uma busca esperançosamente universitária, isto é, liberta de ideologias em favor da sabedoria. De exemplo recordarei o número de 2018 da Revista L’Etat du Monde” que, com o título En quête d’alternatives (La Découverte, Paris), evidencia, entre múltiplos temas, o da “Corruption et gouvernance, un enjeu mondial majeur”, entregue à meditação de Jean Cartier – Bresson, da Université de Versailles – Saint- Quentin – en – Yvelines. Mas antecedendo as guerras que se multiplicaram, incluindo os vários terrorismos que, com o ataque às Torres Gémeas de Nova Iorque, levaram um pregador a dizer que “é tarde para os homens, é cedo para Deus”, o tema que parece sobressair entre todos é da “desigualdade”, não apenas dentro de cada uma das sociedades civis individualizadas no globalismo, mas referindo-se ao que Charles Derber chamou “a maioria deserdada”. Tema assumido por Anthony B. Atkinson no seu “Desigualdade, o que fazer?”, (Lisboa, 2016), que dedicou “A todas as pessoas maravilhosas que trabalham no Serviço Nacional de Saúde”. Provavelmente deve-se a Thomas Piketty o facto de ter colocado este problema no topo dos desafios – enquanto durar a fragilizada paz, também ameaça de perda global, quando publicou O Capital no Século XXI: as preguntas, para as quais procurava resposta, foram enumeradas por Charles Derber, em apêndice ao seu referido livro, em forma de entrevista, e são as seguintes: “as suas classes têm interesses de classes?; Em caso afirmativo, isso implica um conflito de classes?; Vê vantagens na posse pelos trabalhadores?; Vê vantagens na própria ordem pública?; Vê um papel nos movimentos populares, como o Occapy?; Porque serão as nações Anglo-Americanas mais recetivas aos impostos progressivos do que as Nações continentais?; O ritmo de crescimento necessário para uma maior igualdade é ambientalmente sustentável?; O juiz Brandeis disse: “podemos ter grande riqueza e podemos ter democracia, mas não podemos ter ambas as coisas – concorda?”.

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