A opinião de ...

Benfica

Uma tempestade medonha de suspeições atirou o Benfica para a crista da onda do falatório sobre a opacidade e a lei do silêncio existentes no universo do futebol porque a modalidade passou a indústria de milhões e milhões de euros e onde há a possibilidade de lúcaros não há escrúpalos afirmavam sorridentes os almocreves de antanho. Os de agora pensam o mesmo, têm cuidado em não o dizerem e largaram as alimárias mantidas a ração passando a utilizar carros semelhantes aos dos patos bravos, não raro aviões porque poupar tempo é acréscimo de dinheiro.
Sou benfiquista desde os tempos de catequese ministrada no claustro da Sé (velha) cujo pároco era o então Padre Luís Afonso Ruivo. De volta da Sé parava junto ao quiosque do Sr. Exposto e lia as parangonas dos jornais desportivos, especialmente as de A Bola, raramente as do Norte Desportivo, via a cara do Águas, seguia em frente a lastimar não possuir moedas para adquirir o trissemanário a relatar os feitos de O Glorioso.
Aos domingos após assistir no Toural aos jogos do Desportivo corria até à Pastelaria do Sr. Ribeiro para ouvir os resultados da primeira divisão e os respectivos comentários. Vi o primeiro jogo do Benfica no Estádio das Antas, as papoilas saltitantes perderam, o guarda-redes Costa Pereira encaixou três golos. O último decorreu no Estádio da Luz, o resultado saldou-se num empate contra o Sporting, não gostei do visto, ouvido e falado, passei à condição de telespectador regressando ao tempo inicial da RTP, à altura no café Moderno, não sendo raro participar em discussões defendendo o clube das Águias, vituperando o comentador Alves dos Santos (dos cantos) por não esconder o seu sportinguismo.
O futebol transformou-se numa gigantesca indústria envolvendo interesses claros e sinuosos para escamotear o vocábulo mafioso, nesse universo as fragilidades humanas e as chantagens pululam no sentido de os vários negócios renderem o máximo com as consequentes fugas ao fisco, Ronaldo e Messi aparecem como exemplos mais recentes. E, o fisco é glutão, e o fisco não perdoa!
O Ministério Público desta feita conseguiu descobrir toupeiras, há mais, muitas mais, as curiosas toupeiras a troco de camisolas, copos de leite e bolos para as criancinhas, bisbilhotaram canhestramente processos judiciais de interesse para o clube encarnado, porque dentro de um mês cessa o mandato de JMV, o MP entendeu fazer eclodir agora as acusações, incluindo a suspensão de actividades. Sem surpresa nada nos disse acerca de outras fugas de informação e entrada em ficheiros informáticos. E, porque estou a escrever acerca do futebol intriga-me o silêncio do MP relativamente aos processos que lavrou contra três secretários de Estado, porque há dois anos (dois anos) aproveitaram uma boleia da GALP e assistiram a um jogo do Europeu. Enfim, bizarrias só entendíveis lendo O Processo de Kafka.
A justiça deve ser cega, pois que o seja, mesmo cega, quanto mais célere melhor. Se dirigentes e funcionários do Benfica prevaricaram, punam-se, julgados já o foram na praça pública.

Edição
3696