A opinião de ...

Elites

No tempo em que não falávamos para caixinhas de variadas formas, cores e sons, nesse tempo das caixinhas música com miniaturas de bailarinas a dançarem enquanto durava a corda, quando se pretendia diferenciar alguém atestando a origem, formação superior, posição ou teres forra do normal, esse alguém – era da elite – fosse nas vilas esquecidas ou nas cidades de todas as dimensões.
Pertencer à elite significava pertencer a um grupo social superior, estando na primeira linha as elites militares, judiciais, educacionais e religiosas. Numerosas obras de vários pendores dão-nos conta de quão importantes eram as elites ao longo dos milénios, debaixo das múltiplas representações do poder, pois mesmo no âmago dos movimentos revolucionários apareciam indivíduos a salientarem-se e a influenciarem o curso dos acontecimentos, para abreviar refiro Rechiliceu, Mazarino, Robespierre, Lenine, nos pós 25 de Abril, o Major Victor Alves do Estado maior e Melo Antunes. A lista é longa, de filósofos e pensadores também, Môsca, Pareto, Ortega y Gasset, Unamuno, António Sérgio e Raul Proença, entre muitos outros, dedicaram-se a pensar acerca do papel das elites na governação dos povos e das nações.
Lembrei personalidades e referi-me ao passado no intuito de obrigar os leitores a protestarem contra a minha aparente vesguice a inocular a ideia de no tocante a elites vivemos num pântano. Se consegui a sua indignação satisfeito fico prezado leitor. Por isso lanço-lhe a pergunta: onde estão as elites portuguesas? Sim possuímos produtos de excepcional qualidade, e avultam na sociedade portuguesas Homens de alta qualidade capazes de superarem os obstáculos de vária natureza que os impedem de ser consensuais? Sim, talvez Adriano Moreira, talvez Eduardo Lourenço, talvez José Gil. Três pensadores, três homens alheios a vanidades, três professores que os interessados no saber as causas das coisas lêem, estudam e respeitam mesmo quando discordam das suas aporias à primeira vista sem saídas, no entanto, as suas obras tal como o fio de Ariane lançam luz acerca da condição humana e as instituições. E as instituições como estão? As instituições portuguesas vivem num condomínio fechado, na rua da Amargura, em permanente guerrilha que a continuar as levará ao estado vegetativo colocando a democracia em perigosa situação.
Nesse condomínio a educação vive numa uniformização funcional onde o que conta é a antiguidade, mandando os sindicatos e apêndices operativos e raivosas ciumeiras e de costas voltadas para uma salutar e honesta avaliação. A justiça opera em permanente fuga ao segredo de justiça, os processos são arrastados por caracóis preguiçosos, os seus principais executantes deixaram de merecer o respeito de todos, impõem-se pelo medo. Só por isso. No ensino superior e da alta cultura as cliques esgadanham-se na procura de penachos e mordomias. Na economia e finança os sucessivos escândalos decapitaram a ideia e a substância na prevalência de práticas escoradas na seriedade de processos de actuação. Na vida política reina a gritaria, escondem-se os conflitos de interesses, os processos judiciais em curso levam-nos a pensar numa República de bananas. E, os militares?
A instituição militar após o afrontamento a seguir à revolução dos cravos, pouco a pouco voltou a ser primacial apesar de receber ataques mal-educados de jovens dos jotas levando à abolição do serviço militar obrigatório e de velhos saudosistas da época do tilintar das espadas e das botas cardadas. Só que por desatenção, por desinvestimento e laxismo a sua Elite desmorona-se assistindo-se à passagem à reserva de oficiais brilhantes, embora persista o orgulho e o brio profissional como se comprova nas missões realizadas no exterior.
Ante este quadro resta-nos acreditar não no – entre mortos e feridos alguém há-de escapar – sim na elevação da voz e do timbre de todos quantos acreditam na necessidade de termos elites de altíssima qualidade, incorruptíveis e dotadas de bom senso e bom gosto.

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