A opinião de ...

Petas

No primeiro dia de Maio os meninos tentavam causar surpresa aos adultos proferindo petas pobres de engenho, ricas de ingenuidade pueril na tradição das comunidades rurais. No primeiro dia do mês de Maio os meninos trucidavam alegremente castanhas secas (piladas) como poção protectora das mordeduras de burro. Os burros não possuíam as qualidades intelectuais do Asno de ouro do filósofo Apuleio, detinham e os seus descendentes detêm fortes e incisivas dentaduras capazes de causarem grandes estragos nos nossos corpos, por isso mesmo nos ouvidos dos meninos soavam as palavras das mães a avisá-los do perigo de serem alvo dos jericos domésticos. Os leitores de Trindade Coelho conhecem a história do jumento Sultão o qual reconheceu o verdadeiro dono após ter sido roubado alguns anos antes.
Agora, castanhas secas entram nos receituários dos chefes estrela Michelin, nas aldeias escasseiam os meninos, prevalecem as avós a enviarem lágrimas de saudade pelos telemóveis, no tocante a petas produziu-se uma enorme evolução, a todo o tempo dão-nos a conhecer patranhas explanadas nas comissões parlamentares de inquérito ensinando os cidadãos a desconfiarem de tudo, de todos. No entanto, os cidadãos ao contrário dos rapazinhos temerosos das mordidas dos jericos humanos abandonavam a prática das petas, persistem em premiarem os jograis da duplicidade como ora se verifica no prélio eleitoral das europeias.
As pessoas apanham grandes desilusões devido a iludirem-se qual rã apostada em conseguir barriga semelhante ao boi (ler as fábulas faz bem e têm sempre um sentido moral), manda a realidade fugirmos da ilusão (não fugir do lendário filme A Grande Ilusão), por isso mesmo sou adversário do encardidamento do País através da regionalização. O povo na sua simplicidade pragmática rejeitou-a num referendo, volta-se a falar nessa quimera (de ouro falso, ao invés da de Chaplin), os chavões proliferam, complexados de borla e capelo anseiam-na, burocratas e funcionários de nomeação partidária também, os outros, nós, eu, só temos a temer. Tenho curiosidade em ouvir os candidatos a dissertarem relativamente ao tema caso venha à baila nos debates.
O pó de Maio curava as tormentosas frieiras a pingarem nos dedos das criadas de servir (dizia-se assim), nesta época as assistentes domésticas cuidam das mãos a pensarem quanto demorará a Catarina Martins propor a sua elevação à categoria de técnicas de colocação de louças nas máquinas de lavagem. Defendo a dignificação das profissões, não defendo a hipocrisia a começar nas linguagens a terminar no postiço a esconder os ofícios só porque menos lustrosos. A proliferação dos títulos académicos é a suma essência do ridículo. Dia 26 vamos votar, conviria votarmos após pensarmos a Europa ameaçada, pensarmos para lá dos fundos comunitários, pensarmos na preservação da herança civilizacional e cultural do Ocidente. Pensarmos. Pensar custa assim tanto? Não, a peta de o povo ser burro, quanto mais analfabeto melhor tão do agrado de vários próceres salazaristas, um deles natural do concelho da Carrazeda de Ansiães, ainda perdura nalguns círculos é uma grande peta, mesmo quando faz escolhas erradas no nosso entender, o povo não aceita petas capazes de colocarem em causa os fundamentos da sua ancestral sabedoria

PS. À cautela mastiguei três castanhas secas!

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