A opinião de ...

Santas Páscoas, Aleluia, Aleluia!...

Longe da fúria consumista dos grandes centros, é junto das comunidades mais pequenas que a época da Páscoa foi e, de certa maneira, continua a ser vivida dentro do espírito cristão que lhe está subjacente.
Como é sabido, a palavra páscoa, quer dizer “passagem” e, com esse sentido, remonta aos tempos do êxodo do povo de Israel quando, depois dum longo e cruel cativeiro no Egito, guiado por Moisés, fugiu através do deserto em demanda da “Terra da Promissão”, conceito que a religião cristã adotou, dando-lhe, contudo um significado mais profundo e abrangente.
Sem grandes divagações teológicas ou pretensões catequéticas, vou tentar proporcionar os meus queridos amigos uma viagem guiada, (que prometo será muito curta) às celebrações tradicionais das festas da Páscoa na aldeia transmontana onde tive a felicidade de nascer.
Para compreender minimamente o seu verdadeiro sentido e a sua real dimensão, (não podemos esquecer que a celebração da Páscoa é como que o centro e o momento mais alto da liturgia cristã), teríamos de falar, não apenas da festa da Páscoa, mas sobretudo da época pascal que, em bom rigor, se estende do princípio da quaresma até muito para lá do dia de Páscoa, o que não posso nem quero fazer, para não faltar à promessa de ser breve.
Passadas as celebrações da entrada triunfal de Jesus Cristo em Jerusalém no domingo de Ramos, e depois dos dias de meditação, recolhimento e silêncio da semana santa, em que se preparava a celebração da ressurreição do Senhor, chegava finalmente o sábado santo, também conhecido como o sábado da aleluia.
Ao longo da semana santa, cozia-se o pão de trigo, faziam-se os folares, os económicos, as rosquilhas, as súplicas e os canjatos, tudo iguarias, e que iguarias, próprias da época pascal. Preparava-se a igreja com mais esmero e cuidado para a celebração das solenes cerimónias pascais. As próprias casas eram também lavandas e alindadas a preceito para receber condignamente os familiares que vinham de longe passar a páscoa com a família e, muito especialmente, receber condignamente a visita do Senhor ressuscitado no dia da visita pascal.
Dentre as cerimónias da semana santa, todas imbuídas dum profundo espírito cristão, dava-se um especial relevo à celebração da instituição da eucaristia, à cerimónia do lava-pés, à procissão do enterro do Senhor, à encomendação das almas e à reconstituição da via- sacra, gravitando tudo à volta da solene celebração da ressurreição triunfal de Jesus, que começava na noite de sábado da aleluia e se estendia por todo o domingo de Páscoa.
Em sinal de respeito pela morte do Senhor, os sinos só podiam tocar depois da meia noite e os fiéis eram chamados para as cerimónias da vigília pascal por um grupo de jovens que percorriam toda a freguesia tocando vigorosamente as “matracas”, um instrumento que só era utilizado nessa época, constituído por uma grossa tábua de olmo bem seca, com cerca de meio metro de comprimento, onde se fixavam as argolas de ferro que faziam de batentes.
Nesta noite a igreja era demasiadamente pequena para tanta gente, porque ninguém queria perder cerimónias tão ricas de significado como a bênção do lume novo, dos santos óleos e, muito especialmente da água baptismal, água que depois era distribuída aos fiéis, que com todo o respeito a levavam depois das cerimónias, para com ela abençoar as suas casas, os seus animais e todos os seus haveres.
Eram cerimónias longas, que para os mais novos se tornavam algo fastidiosas e cansativas, mas a que todos assistiam com muita fé, devoção e respeito, sempre em função de viver de novo a alegria da ressurreição de Jesus que o celebrante iria anunciar solenemente durante missa da meia noite, cantando jubilosamente:
Cristo ressuscitou, Aleluia, Aleluia, a que toda a assistência, vibrantemente e em coro, respondia também cantando: Aleluia, e Aleluia !

(Continua)

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