Identidades

Se perguntarmos ao ancião de Lagarelhos o que entende por identidade, o homem apesar de parco em letras de escrever acabará por se lembrar do Bilhete ou da Cédula que atestam as suas características e origens, o mesmo podemos plasmar relativamente às regiões, povos e países. Se metermos conversa com a velhinha de Quadrazais e lhe perguntarmos de onde nasceu logo se expande em consideração/informações não deixando de evocar os ancestrais contrabandistas e peculiar acento linguístico. O saudosismo de Teixeira de Pascoaes é expressão da alma portuguesa cujo veio espiritual o podemos compreender quando no estrangeiro as lágrimas rebentam nos olhos ao ouvirmos o Hino nacional, o mesmo derrame na altura de evocarmos os nossos queridos mortos, isto para aqueles que não perderam a identidade nacional e familiar. Há quem a nunca pressentido tais sentimentos, aquilo que em determinados patamares se nomeia no – sentir a camisola – seja de naipe cromático das camisolas desportivas, seja no pulsar, o orgulho de nós próprios em pertencermos a esta Entidade, àquela Instituição, ao Colégio fulano, à Universidade beltraneja (a Joana desculpa). Estes exemplos evidenciam quão vital é para os povos manterem os liames identitários, veja-se o apego a esses liames vindo de povos vítimas de genocídio, guerras e outras catástrofes. A alma dos povos ressuma na exaltação da sua identidade, as bandeires, os hinos, as evocações, as estátuas, os bustos, as medalhas, as moedas, a toponímia o atestam exemplarmente. Não por acaso nos Estados Unidos se comemora o Memorial Day, o dia da Memória. Não por acaso comemoramos o Dia de Camões, noutro nível, mais íntimo, mais reservado no sentido do credo, tão largo e ecuménico na universalidade, a Igreja não esquece as figuras que corporizam a sua essência, corporizada em Jesus Cristo.
A perda de identidade é trágica seja que de natureza for, eu ouço pessoas lastimarem e chorarem a perda identidade, dois exemplos simples e de fácil compreensão, o desaparecimento em Portugal do Banco Nacional Ultramarino (persiste em Timor) e da Marconi, por essas terras fora de marcas identitárias cujas sinuosidades só os de lá conheceram. As barragens ocultam muitas, todavia são lembradas. As Instituições ficam mutiladas quando lhes retiram alguma da sua marca de água. Acreditem!
Sem intuitos lacrimejantes, muito menos de concordância com a incompetente política salazarista, para lá dos terríveis prejuízos económicos, trago à colação a forçada perda de identidade dos nossos compatriotas nascidos no antigo império colonial, aqui e ali, no território transmontanos persistem inscrições testemunhos da identidade perdida, cafés, restaurantes, ruas, vocabulários e representações culinárias atestam a persistência em não perder a identidade. Vale a pena meditarmos antes de escrevermos ligeirezas acerca das referidas identidades.