“O Terrorismo da Maledicência”

“Quando tens vontade de falar mal de alguém, é melhor que mordas a língua; talvez ela inche, mas não  farás mal a ninguém…”
Papa Francisco.
 
No início do mês de Dezembro do ano que agora findou, durante uma homília proferida na Igreja do Santo Rosário, em Daca, por ocasião da visita ao Bangladesh, Sua Santidade o Papa Francisco, uma das figuras mais consensuais e inspiradoras do mundo – de quem sou incondicionalmente fã -, com a frontalidade e contundência que lhe são peculiares, lançou duras críticas a todos os cristãos que se alimentam do terrorismo da maledicência.
Há poucos dias, foi noticiado que a dependência dos videojogos por parte dos adolescentes e jovens de todo o mundo tinha sido finalmente incluída na lista de doenças mentais da Organização Mundial de Saúde (OMS). Ao digerir a notícia, e depois de ouvir com mais atenção a citada prelecção do chefe máximo da Igreja Católica, fui assaltado pela ideia de que a maldade do ser humano, num grau e frequência em que se torna corrosiva e capaz de destruir indelevelmente a vida do nosso semelhante, devia ser considerada uma doença psiquiátrica.
Se analisarmos, mesmo sem qualquer esforço mental ou pesquisa de laboratório, o perfil psicológico e as motivações daqueles que espalham o terror da malignidade, chegamos à seguinte conclusão: esta gente, de um modo geral, é perseguida pelos traumas de infância, recalcamentos, frustrações, convive mal com o sucesso dos outros, ainda que conquistado a pulso – não me refiro, claro, aos troféus concedidos aos medíocres. Esta gente é covarde, apunhala pelas costas, espalha a calúnia e o boato de forma gratuita; usa a carta anónima e as redes sociais como meios difusores da malvadez. Estas pessoas, por muito estranho que pareça, são infelizes, vivem a vida dos outros, esquecendo-se de viver a sua, sofrem muito, porque são mentalmente perturbadas.
No dia – a dia ouvimos com alguma frequência a frase adversativa: “fulano tal, mau como é, anda sempre na igreja a bater com a mão no peito!”. Embora pareça ilógico e contraditório, a verdade é que a casa de Deus, esse lugar sagrado, de devoção, não deixa de ser o mais indicado para quem diariamente pratica o mal. Não só faz sentido alguém que respira maldade ir à missa com regularidade, como é aconselhável que o faça, porque não há sítio mais indicado para reflectir sobre a culpa e a má consciência.
Um outro caminho que os maus podem seguir para se tornarem melhores pessoas, não incompatível com o encontro com o divino, mas como complemento deste, pelo menos enquanto a OMS não reconhecer a maldade como uma doença mental e, em consequência, não for incluída no Plano Nacional de Saúde, é a integração voluntária desta gente na comunidade de “maldosos anónimos”. Uma solução que, a ser aceite pelos interessados, iria trazer problemas de logística, no caso das reuniões se efectuarem em recintos fechados, como se justificaria.
Não asseguradas as duas hipóteses, ficamos com uma certeza reconfortante e encorajadora: embora haja incomparavelmente muito mais gente má do que boa, numa sociedade cada vez mais dada às amizades virtuais, aos “laiques” e à partilha, não de afectos, mas de conteúdos “on laine”, a bondade e a generosidade dos Franciscos, das Teresas (de Calcutá) e das Alices, que combatem o mal com o bem, e “são pobres em coisas, mas ricas em amor” – citando o Papa Francisco, para se referir a Maria -, ofuscam por completo as acções maliciosas dos primeiros, tornando, assim, o mundo mais colorido e aprazível.