Primo de Crasso…

Atento à vida que me circunda e arrasta vou indo nas ondas do tempo. Os jornais, a televisão e os amigos sintonizam e difundem as novidades. Agora, com a disponibilidade que me chega por mérito da idade e da saúde, gosto de me passear por entre as gentes, aquele mundo que tudo faz para cumprir a lei da vida. Tal como a abelha, vou cheirando aqui e acolá, aspiro o que me interessa e, regressando à base, separo por paladares, talvez por ideias, sentimentos, revoltas e concordâncias.
Nestas noites chuvosas, no aconchego do lar, defronte do ecrã que despeja sem cessar as notícias que interessam ao director, estes são os tempos, e que me compete decifrar, notícias potenciadoras do alerta noturno, pois que somatizam preocupações preocupantes, inibidoras do repousante sono, inquieto-me.
Com aquelas certezas que um dia nos podem cercar, tenho em mim que Costa será primo de Crasso, o tal do erro, derrotado pelos Partos, um insignificante e minoritário povo Persa. Por fraca estratégia ou impulso, tal como aquele Centurião, pensa chegar ao vale do Paraíso por garganta estreita onde os opositores se esconderão, de cima, a olhar para os que em baixo pensam rumar ao sucesso, à felicidade, à vitória. Não acredita que um dos seus parceiros, minúsculo como Partos mas com munições sindicais, entrincheirado na função publica, tudo fará, pois que natural é, tudo fará para sobreviver agarrado a uma utopia que já lá vai.
Não vislumbrar o gigantesco fosso que separa a função publica do sector privado, não entender as tremendas injustiças que separam estes dois mundos do trabalho, premiar os que se regem por diferenças que esmagam a moral da equidade e, dentro da função publica, mimosear apenas grupos que sustentam a governação através daquele parceiro, é não antever a hecatomba, a borrasca que se prepara e agiganta, no limiar das legislativas e aprovação do próximo Orçamento de Estado.
Não perceber que, no privado, as carreiras são inexistentes e a estagnação remuneratória é de duas décadas, e que são cancro sem cura, vulcão desigual e que o facilitismo no despedir é aviltamento à dignidade familiar, então são cabeça de avestruz enterrada com gigantesco rabo indiferente, de fora.
Para espanto de todos, no desapertar do garrote da austeridade, o governo acerta contas, em primeiro lugar, com a função publica que, durante a travessia do desespero não contou com nenhum despedimento, individual ou colectivo.
Insufladas por sindicatos esclerosados, as Corporações, aí estão de novo. O país assiste a revindicações de classes privilegiadas, alheias do país real, bactérias geradas por um Abril distraído, germinadas em terreno fértil na era Cavaco.
E, mais uma vez, os do costume, entopem a democracia, sufocam a moralidade, no que toca à distribuição justa da riqueza.
No topo do desfiladeiro, alguma esquerda espreita, pronta a dizimar as tropas que, lá no vale da esperança, poderão sucumbir, antes da vitória, por erro de Costa, Primo de Crasso.