Armando Fernandes

 

 

Natal todo o ano

É uma frase feita, a do Natal durante o ano inteiro. Temo que não passe disso mesmo. No entanto, se agora existem excepções a confirmarem a regra, no antecedente, pelo menos até à década de setenta do século findo, nas aldeias, vilas e na cidade, quase posso afirmar com certeza que a excepção era ao contrário. A generalidade das casas mais abonadas auxiliavam as carentes, nas aldeias mais à solta ou à vista, em Bragança as benfeitoras (a maioria do auxílio era prestado pelas mulheres) praticavam o recato cumprindo na íntegra a máxima: que a mão esquerda não saiba o que a direita faz.


Agora e na hora da nossa morte

Aumentou a nossa esperança de vida, consequentemente aumentaram de forma desmesurada as necessidades de apoio debaixo de todos os aspectos aos nossos parentes mais velhos. O título desta crónica é o de um livro consequência de um projecto-piloto de cuidados paliativos domiciliários, no Planalto Mirandês, iniciado em 2009, apoiado pela Fundação Gulbenkian, Instituição que também o edita e colocou ao alcance de todos os públicos.


Machetadas

Propunha-me escrever sobre a abstenção e o extraordinário aumento dos votos nulos e brancos nas últimas autárquicas, e os sinais de doença que representam para o regime, mas a última machetada obriga-me a adiar o propósito. Pessoalmente nada tenho contra Machete, ele ser ministro dos Negócios Estrangeiros provoca-me irritação em virtude dos seus sucessivos dislates a, certamente, levarem representantes de outros países a desconfiarem da sanidade política de quem manda. Para já é o que temos.


O eclipse dos Politécnicos

O eclipse durou dezenas de anos. Apesar dos avisos dos demógrafos e cientistas sociais a euforia do ensino superior fez reproduzir como cogumelos as universidades privadas, e cada distrito reivindicou pelo menos um Instituto Politécnico (até Lisboa tem um), dois existem no distrito de Santarém. As vozes bem sustentadas em estudos e opiniões amadurecidas avisando dos perigos da proliferação foram mandadas calar, os cursos à escolha faziam (fazem) lembrar as lojas dos trezentos ou dos chineses.


O poder

O camarada Nikita, cognominado o martelo da Ucrânia, ainda o camarada Estaline não tinha sido colocado no sarcófago funerário e protagonizava acção onde perdeu a vida o tenebroso e famigerado Béria, tendo depois apresentado no XX Congresso do Partido o famoso relatório (quem o possuir ganha se o reler de quando em quanto) no qual disseca os crimes cometidos durante o reinado do Zé dos Bigodes, atribuindo-lhe a responsabilidade pelos mesmos.


Podridão

O Dr. Rui Machete depois da tomada de posse como titular da pasta dos Negócios Estrangeiros (ele é veterano no referente a ser ministro), e após ter sido questionado sobre a sua actuação na SLN (matriz do BPN) e no Banco Português Privado, entendeu as perguntas como sintoma de “podridão dos hábitos políticos” e, no mais balbuciou estar de consciência tranquila. A resposta deixa subentender que o Sr. Ministro está convencido de possuir uma magistralidade acima do comum dos mortais, revelando antipatia (pelo menos) para com os jornalistas, esses grandes maçadores a todo o tempo e instante.


O descomprometimento do compromisso

Os últimos acontecimentos políticos demonstram à saciedade o descomprometimento dos parceiros da coligação em honrarem o compromisso de governarem acertadamente, eliminando as impurezas herdadas do antecedente, concretizando uma positiva forma de administração pública de modo a voltarmos a ter esperança num futuro melhor. Nada disso aconteceu.