Armando Fernandes

 

 

Tabafeias

Na última edição do Mensageiro a propósito do intento da Câmara de Miranda em certificar a tabafeia, a Senhora Vereadora da Cultura disse: “Tabafeia uma espécie de alheira apenas produzida na região de Miranda do Douro”, o que além de ser uma falsidade do tamanho da Sé do Menino Jesus da Cartolinha, significa estar a detentora do pelouro cultural a passar um atestado de menoridade às gentes de outras localidades da Terra Fria. O sábio Leite de Vasconcelos acerca da tabafeia anota: “É, em Bragança, uma espécie de chouriço feito de dobrada, galinha, pimento, etc.”.


Há mar e mar…

Tinha sete anos quando pela primeira vez vislumbrei o mar. Não lhe achei graça, meteu-me medo, aquele mar de Matosinhos pura e simplesmente perdia relativamente ao mar sonhado através do ouvido na aldeia de Lagarelhos. Ao dia de ver o mar sucedeu a noite, bem mais alegre e garrida, no arraial em honra do Senhor de Matosinhos comi farturas, andei nos cavalinhos e o meu benquisto Tio Francisco ofereceu-me um biciclista de madeira dotado de campainha de modo a avisar os distraídos da iminência de choque. Entre o mar e a terra preferi a certeza de pisar terreno firme.


Tempos Extraordinários

A torto e a direito, por dá cá aquela palha, ouvimos e lemos, estarmos a viver tempos extraordinários. Em muitas perorações é notório o extraordinário empenho dos faladores tentarem mascarar a realidade através dessas duas bengalas, revelando dificuldades em admitirem serem os extraordinários tempos resultado dos tempos difíceis, cujo retrato sombrio nos foi dado por famoso escritor inglês autor de obras de danação humana, cujo título de uma delas é: Tempos Difíceis.


Lembrando Eusébio

A primeira pessoa em Bragança a mostrar-me uma fotografia de Eusébio, foi o Senhor Augusto Poças. Benfiquista ardoroso nutria grande apreço pelo artífice da vitória em Amesterdão, que eu presenciei no café Moderno debaixo os olhares vigilantes do Sr. Roque, o qual além de ser Andrade abominava ver-nos sentados duas horas ao redor das mesas consumindo apenas um galão e um bolo de arroz, este de óptima qualidade. Julgo que o Sr.


Medo

A passagem de um ano para o outro para além das mundanidades, da farândola festiva e amenidades quantas vezes eivadas de hipocrisia, obriga os incomodados com eles próprios a fazerem o balanço do passado e perspectivar o futuro. Do ouvido, lido, respigado e conversado retiro a palavra medo. Não o medo aos medos da minha meninice que surgiam nas encruzilhadas, nos locais ermos, nas travessas esconsas onde os meninos não deviam ir, nem de noite, nem de dia, muito menos à hora do meio-dia.


Natal todo o ano

É uma frase feita, a do Natal durante o ano inteiro. Temo que não passe disso mesmo. No entanto, se agora existem excepções a confirmarem a regra, no antecedente, pelo menos até à década de setenta do século findo, nas aldeias, vilas e na cidade, quase posso afirmar com certeza que a excepção era ao contrário. A generalidade das casas mais abonadas auxiliavam as carentes, nas aldeias mais à solta ou à vista, em Bragança as benfeitoras (a maioria do auxílio era prestado pelas mulheres) praticavam o recato cumprindo na íntegra a máxima: que a mão esquerda não saiba o que a direita faz.


Agora e na hora da nossa morte

Aumentou a nossa esperança de vida, consequentemente aumentaram de forma desmesurada as necessidades de apoio debaixo de todos os aspectos aos nossos parentes mais velhos. O título desta crónica é o de um livro consequência de um projecto-piloto de cuidados paliativos domiciliários, no Planalto Mirandês, iniciado em 2009, apoiado pela Fundação Gulbenkian, Instituição que também o edita e colocou ao alcance de todos os públicos.