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Os cuidados paliativos no Distrito de Bragança são diferentes. Veja o VÍDEO e perceba porquê

AGR/Marta Pereira em Ter, 23/05/2017 - 00:46

A forma como encaramos a saúde no Nordeste Transmontano pode estar prestes a mudar, graças a um novo projeto que a administração da Unidade Local de Saúde pretende implementar brevemente. O objetivo é reduzir o período de internamento nos hospitais, libertando vagas para os casos realmente agudos, à semelhança do que já acontece com os cuidados paliativos.
“A filosofia é a mesma mas em vez de os doentes estarem aqui, desenraizados da família e das suas casas, os doentes ficam em casa e a equipa médica e de enfermagem faz a visita que faria no hospital”, explicou Carlos Vaz, à margem da assinatura de um protocolo com a PT (Altice), cuja Fundação ofereceu equipamentos eletrónicos (80 telemóveis e seis tablets) e uma viatura à ULS, para a equipa de Cuidados Paliativos da Terra Fria.
De acordo com Carlos Vaz, este projeto que está agora a ser estudado, uma vez que já foi implementado pelo Garcia da Orta, traz diversas vantagens. “Por um lado, evita os internamentos.
Em segundo lugar, as doenças hospitalares criam graves problemas de imunidades. A partir das 74 horas internado o doente adquire essas infeções”, pelo que esta seria uma forma de as prevenir.
Esta ideia surge na sequência dos bons resultados que as equipas de apoio domiciliário.

Rede tão abrangente de cuidados domiciliários é pioneira no país
De acordo com os dados apresentados por Duarte Soares, um dos médicos responsáveis por esta valência, os ganhos são evidentes, refletindo-se na qualidade de vida, com o decréscimo acentuado da dor experienciada pelo doente.
Graça Rebôcho, da Fundação PT, garante que é por ser tão diferenciador que este projeto foi apoiado. “Tirando os equipamentos de teleassistência que temos doado a algumas câmaras, este foi o maior donativo. Achamos que vale a pena. É um projeto diferenciador e marca a diferença”, frisou aquela responsável.
Carlos Vaz reconhece isso mesmo e, por isso, até ao verão, quer ter todo o distrito de Bragança coberto pela rede de equipas de apoio domiciliário. “Os resultados são fantásticos, de tal ordem que vamos alargar para o sul do distrito. Já temos o Planalto Mirandês, a Terra Fria, Alfândega da Fé e agora vamos articular com a zona sul (Vila Flor, Carrazeda, Freixo e Moncorvo), desde que consigamos convencer os parceiros, que são as Câmaras. Vai ser uma mais valia para as populações da região”, acredita o responsável da saúde da região. Carlos Vaz considera que esta solução ajuda a poupar recursos públicos. “Fica mais barato ao país porque a saúde tem a sua comparticipação e a nova filosofia é a da colaboração. É mais fácil uma câmara disponibilizar um carro para as visitas na sua zona de influência do que nós comprarmos carros para 14 equipas, mais as deslocações. A colaboração nessa área e na contratação de profissionais residentes é muito mais fácil.
Muitas vezes abrimos concursos que ficam desertos e isso não é por acaso. Se forem as câmaras é muito mais regional e abrangente. E conhecem a realidade muito melhor”, sublinha o administrador, que enaltece, também, o papel dos municípios enquanto parceiros “privilegiados”.
“As melhorias na saúde devem-se, em grande parte, ao trabalho feito pelas câmaras com a construção do saneamento básico e da água canalizada”, nota.
Por outro lado, são as câmaras que suportam parte do esforço financeiro exigido para manter em funcionamento estas equipas. Estes projetos têm timings. Para já, o acordo está em vigor até 2019 mas Américo Pereira, presidente da Comunicade Intermunicipal Terras de Trás-os-Montes, que representa os autarcas da região, avisou que é preciso estar atento.
Carlos Vaz lembra que  o atual acordo é até 2019. “Nessa altura negociar-se-á com os parceiros e instituições”, até porque também as Fundações “têm estado abertas à colaboração”, como é o caso da PT, da EDP ou da Gulbenkian, que começou por financiar o projeto do Planalto Mirandês.
Nestes dois anos, as equipas domiciliárias realizaram cerca de 7.200 visitas domiciliárias, com uma média de 21 visitas por doente, e efetuaram cerca de 6.200 contactos telefónicos.
Fruto do trabalho desta equipa, registou-se quer um maior alívio da dor sentida pelos doentes, quer uma menor necessidade de hospitalização dos mesmos, durante o período de doença. 
É a patologia oncológica aquela que mais se verifica entre os utentes da UDCP da Terra Fria, no entanto têm surgido também casos de necessidade de apoio devido a demência, insuficiência cardíaca e acidente vascular cerebral, entre outras.
A média de idades destes doentes situa-se nos 77,2 anos, um dado que vai de encontro às estatísticas mais recentes, segundo as quais a população do distrito de Bragança - área de abrangência da ULS do Nordeste – é, a par da dispersão geográfica, uma das mais envelhecidas do país (com uma proporção de pessoas idosas de quase 39 por cento em alguns concelhos, enquanto a média nacional é de 19 por cento). Este é também um facto que atesta a pertinência do crescente investimento desta Unidade Local de Saúde na área dos Cuidados Paliativos, em particular numa assistência de proximidade aos doentes. A criação da Unidade Domiciliária de Cuidados Paliativos da Terra Fria surgiu da replicação de um outro projeto análogo, pioneiro a nível nacional, em curso no Planalto Mirandês e o qual, nos últimos cinco anos, já beneficiou mais de 300 doentes nos concelhos de Miranda do Douro, Mogadouro e Vimioso. Em janeiro passado, a ULS Nordeste integrou ainda a Unidade Domiciliária de Cuidados Paliativos de Alfândega da Fé, no âmbito de uma parceria entre a Câmara Municipal e a Liga dos Amigos do Centro de Saúde de Alfândega da Fé.

Formação pioneira

O Nordeste Transmontano tem sido pioneiro na forma como lida com os cuidados paliativos, que em Portugal ainda estão “bastante atrasados”. A convicção é de Ana Pires, médica, que participou na primeira ação de formação aberta a instituições particulares de solidariedade social do distrito, promovida pela UIPSS na Fundação Betânia. A procura foi tão grande que as 50 vagas esgotaram e ficou prometida uma segunda edição. “Hoje há uma necessidade cada vez maior dos profissionais em conhecer técnicas e estratégias para melhor poderem intervir e responder às necessidades do dia a dia, que são cada vez maiores. A União tem tido o cuidado de organizar iniciativas que ajudem à formação dos seus associados”, explicou Paula Pimentel, responsável da UIPSS do distrito.

O Pe. Manuel Ribeiro, um dos oradores convidados, lembra a importância da dimensão espiritual no processo de cura. “Como somos seres sociais, relacionais e também racionais, a dimensão espiritual também é parte integrante da vida. E a saúde também é parte espiritual, por isso cada vez mais a espiritualidade é vista do ponto de vista cristão”, sublinhou, lembrabdo que “ninguém está só e que todos somos amados uns pelos outros”. Mas sobretudo a comunidade tem que se sentir responsável nessa dimensão”.

Liseta Gonçalves explica que é importante que os cuidadores, profissionais ou não, saibam como atuar. “Esta era uma lacuna, todas as pessoas que trabalham em cuidados paliativos têm que perceber o que é que estão a fazer. E para perceberem o que estão a fazer têm que receber informação. Nesse sentido, nós sentimos esta lacuna em relação aos cuidadores formais e informais de doentes com necessidades paliativas e também dos próprios familiares. Como tal, resolvemos fazer esta sessão de dessensibilização em relação aos cuidados paliativos. E digo dessensibilização exatamente porque os cuidados paliativos até à pouco tempo tinham uma carga negativa que nos não lhe queremos aportar”, diz.

Para além de uma parte teórica, ministrada de manhã, esta formação contou com uma vertente prática, que decorreu na parte da tarde, nas instalações da Fundação Betânia.
 
Para saber mais sobre o trabalho das equipas de Cuidados Paliativos da ULS Nordeste, não perca o vídeo.