A opinião de ...

O mundo novo das fake news

Notícias falsas, vídeos manipulados, campanhas coordenadas de desinformação para manipular a opinião pública são fenómenos preocupantes. A caixa de Pandora está aberta. A cada vinte minutos, são trocadas 2,7 milhões de mensagens no Facebook. Sabendo que informações falsas têm um potencial viral seis vezes maior do que o de uma informação real, como podemos garantir que o estado de direito seja mantido no mundo digital?

A mudança do panorama mediático pela expansão das redes sociais está a modificar o processo de tomada de decisão democrática. As redes sociais permitem espalhar as informações falsas de anónimos (pessoas e robôs) que os utilizam para manipular a opinião pública e atacar os adversários. Uma pessoa, ou um pequeno grupo de pessoas, pode usar um exército de trolls e bots nas redes sociais para criar a ilusão de um consenso em grande escala e difundir uma ideia ou informação distorcida. A propaganda automatizada é uma das novas ferramentas mais poderosas contra a democracia.

As redes sociais estão organizadas de forma que os seus algoritmos selecionam o que nos é dado a ler e ver, remetendo-nos para grupos com quem temos afinidades ideológicas e políticas, o que contribuiu para radicalizar o debate e aumentar a tensão e a agressividade para com os que não pertencem à mesma comunidade.
Não admira, pois, que o assunto esteja no centro da agenda mediática e política de todos os países democráticos. E que, em ano de eleições para o Parlamento Europeu (26 de maio), as instituições europeias estejam a preparar um plano de ação para prevenir e combater a desinformação.
O Conselho da Europa também tem alertado para a gravidade do problema. Na última Assembleia Parlamentar (APCE), foram debatidos dois relatórios: “Liberdade dos meios de comunicação social como condição para eleições democráticas” e “Os meios de comunicação social de serviço público no contexto da desinformação e da propaganda”. Participei nesse debate, apelando à APCE e aos Estados-membros para tomarem medidas eficazes para proteger o processo eleitoral e a democracia da ameaça que a manipulação da informação e propaganda através das redes sociais representa. Chamei também a atenção para o papel das redes sociais nas eleições presidenciais nos Estados Unidos (2016) e no Brasil (2018), distorcendo os resultados, como ficou demonstrado pelo caso Cambridge Analytica e a partilha de dados do Facebook que permitiu a manipulação de milhões de utilizadores desta rede.

Também o estudo, “Conspiração e democracia”, realizado pela Universidade de Cambridge em nove países (Portugal, Itália, Polónia, França, Estados Unidos, Suécia, Alemanha, Hungria e Reino Unido), veio provar que a profusão de informações manipuladas perturba os processos eleitorais nas democracias ocidentais.
É urgente uma atuação clara e firme contra este flagelo sobretudo em períodos de campanhas eleitorais. Prevê-se que, este ano, os inimigos da democracia da União Europeia estejam mais ativos do que nunca, produzindo notícias falsas antes das eleições europeias. É responsabilidade de todas e de todos combater os conteúdos falsos, o discurso de ódio, os factos alternativos que, como um cancro, estão a corroer a vida democrática.
Não podemos aceitar a inevitabilidade de viver na era da “pós-verdade”.

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