A opinião de ...

A Falta de Civismo Tipicamente Tuga

 
Num destes programas televisivos do género “Você da TV”, vi, há algum tempo, de passagem, uma entrevista a um senhor que, emigrado no Brasil desde criança, voltou pela primeira vez à terra natal com 80 anos. À pergunta “como distinguia ao longe os seus concidadãos dos demais?”, respondeu: “ Quando via na rua um homem de bigode, palito na boca e a deitar lixo para o chão, estava identificada a nacionalidade”
Por estranho que possa parecer, e ainda que este retrato do português, com algumas décadas, tenha que ser visto à luz de um contexto sócio – cultural, a verdade é que, de então para cá, mesmo com uma sociedade incomparavelmente mais letrada, apenas o bigode e o palito na boca deixaram de ser uma marca distintiva do tuga.
Longe de ser um ambientalista radical, fico extremamente indignado por assistir, no dia a dia, a toda a hora e em qualquer espaço público - no campo, na praia e no rio - a tanto atentado contra a natureza. Miúdos e graúdos, homens e mulheres, agindo, na maioria das vezes, maquinal e mentalmente por comodismo, revelam a sua personalidade através duma patológica falta de civismo.
Deste preciso Verão, destaco dois episódios, de centenas deles que presenciei.
Num dado Sábado de Agosto fui com a família para a praia fluvial de Soeira. Sendo uma das mais bonitas e com maior potencial turístico do distrito, estranhamente, as autoridades locais não investem nela. Mas, adiante. As casas de banho que servem o dito espaço, bastante razoáveis, pareciam uma autêntica pocilga, porque foi utilizada por gente que não é digna de aceder a elas. A escassos metros daquela água invejavelmente límpida, um jovem casal, bem “parecido”, que se fazia acompanhar duma criança de colo, abandonam a zona de banhistas, deixando a fralda suja do bebé no chão e o maço de tabaco vazio; sendo que a 10 metros se encontrava um contentor do lixo.
Uma semana depois, o convívio familiar repetiu-se, mas desta vez o cenário foi o bonito e bem concebido parque de merendas de S. Joanico, Vimioso, a minha aldeia de coração, conhecida pelos famigerados lagostins, pela honesta, laboriosa e prazenteira gente. Dois dias antes tinha lá ido fazer o “reconhecimento” da zona. No parque, em frente ao rio (Angueira), estavam estacionadas duas autocaravanas, de portugueses, que indiciavam terem ali permanecido 2 ou 3 dias. No dia da merendola, quando nos preparávamos para descarregar o farnel, deparámo-nos com uma labreguice de todo o tamanho; desde restos de comida a pensos higiénicos! Incrível! Solução: tive que limpar a nojeira dos outros.
Por alturas da Senhora da Serra, em conversa com um grande amigo sobre o tema, o meu interlocutor contou-me que se viam muitas garrafas de água vazias, de plástico, “semeadas” pelos caminheiros durante o sacro percurso. Segundo ele (e eu concordo), a garrafa de plástico sem o conteúdo não pesa nada. Era só metê-la dentro da mochila. Enfim, o hábito de algumas pessoas moralmente mal formadas!
Por falar de hábitos desta natureza, e porque está provado que, pela via da pedagogia e da sensibilização, eles não se perdem (a esperança residia nas novas gerações, mas a pequenada teima em aderir ao “desporto” que se baseia na modalidade do arremesso da lata da coca-cola e do leite achocolatado para o chão), a esperança seria accionar os mecanismos dissuasores.
Não o fazendo, os bisnetos do “ brasileiro português de Braga” acima aludido, irão responder da mesma maneira àquela mesma pergunta duma Fátima Lopes ou dum Goucha, apenas com a diferença do bigode e do palito na boca! E este espírito egoísta que assenta no princípio de “quem vier depois, que se desenrasque”, muito próprio da cultura tuga, assim se vai eternizando.

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