A opinião de ...

Perdão sem redenção

O Papa da cristandade católica, Jorge Mário Bergoglio, Francisco de nome adoptado, foi à Irlanda e, mais uma vez, perante um povo em dúvida crescente sobre o catolicismo, pediu desculpa pelos abusos sexuais de muitos membros da Igreja Católica sobre menores.
Foi um gesto bonito, interpretado de modos diferentes e opostos pelos membros da Igreja Católica que entenderam vir a público expor as suas perspectivas sobre o caso. Os opositores de Francisco censuraram-lhe a sua sinceridade, a sua humildade e ainda a o tempo tardio da denúncia e do pedido de perdão, como se o Papa tivesse sido um cúmplice, exigindo, por isso, a sua renúncia. Os defensores louvaram-lhe a coragem, a humildade e o reconhecimento da humanidade dos membros da Igreja, expostos ao pecado como quaisquer outros.
Aparte a polémica, com muitos contornos e bizantinices, lamento a inconsequência do gesto de Francisco pois não deu origem a uma reflexão nem sobre a pertinência do celibato nem sobre a imputabilidade civil dos clérigos pecadores nem ainda sobre o reconhecimento da culpa como atitude inicial de um membro da cristandade.
Com efeito, muitos membros do Clero vivem ainda na ilusão da Respublica Crhistianna medieval, com poderes de regulação própria e à parte da justiça civil, tentando preservar o seu estatuto de seres superiores aos homens comuns e exigindo uma justiça apenas no interior da comunidade clerical porque o homem vulgar tem de pensar que os membros do clero são, se não santos, pelo menos enviados escolhidos por Deus e, por isso, merecedores de uma justiça que lhes evite os anátemas dos pecadores civis.
Assim contextualizado, o pedido de perdão pode não passar de uma hipocrisia (eu quero acreditar que não), uma tentativa falhada de lavar a sujidade de muitos membros da Igreja, uma estratégia para lidar com o complexo de culpa mas também um apelo ao ressarcimento dos males cometidos sobre os menores.
Porém, a história da Igreja e a bíblia demonstram a maldade do ser humano muito mais que a bondade e que, por isso, os abusos se vão continuar a repetir como em todos os outros sectores da sociedade porque, não podendo os membros das organizações confessionais fazer a catarse das suas pulsões sexuais, criarão contextos clandestinos e desviantes para o fazer.
Até porque o abuso sexual sobre menores não ocorre só no interior da Igreja Católica sendo transversal a toda a sociedade. O pecado também não é exclusivo dos membros da Igreja Católica estendendo-se a toda a humanidade e a todas as sociedades.
O que me impressiona na Igreja Católica é atitude de, como a avestruz, meter a cabeça na areia e esperar que o vendaval passe. É esta atitude que corrói a crença nos valores do cristianismo e o torna presa fácil dos seus detractores e dos seus delatores, que buscam minar os alicerces da nossa civilização, de matriz cristã.
 

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