A opinião de ...

A realidade para lá dos números

O mês de setembro trouxe-nos a realidade que todos temíamos e outubro está a servir para confirmar que não é apenas coincidência. A segunda vaga do novo coronavírus está mesmo entre nós e veio para ficar.
Tal como o Mensageiro antecipou nos meses de maio e junho, setembro e outubro seriam meses de grande crescimento do vírus que transformou a forma como vivíamos. Entre o final de setembro e a passada terça-feira, foram registados mais 186 casos positivos no distrito de Bragança, que significam mais 147 casos ativos porque, entretanto, recuperaram mais 34 pacientes, havendo, ainda, a lamentar mais uma morte do que na semana anterior.
Este aumento do número de casos positivos já era expectado. Por um lado, pelo clima e pela presença do vírus da gripe que acaba por servir de porta de entrada aos restantes.
Por outro, pelas condições meteorológicas. O tempo mais húmido e frio é mais propício à disseminação deste tipo de vírus. Por fim, o contexto social. Depois das viagens de férias, da saturação de meses de confinamento e restrições, o baixar de guarda seria certo, coincidindo com o regresso às aulas de milhares de crianças e jovens.
As últimas semanas permitiram, já, bater o recorde diário de casos por três vezes. Chegados aqui, o cenário descrito parece catastrófico. Se a isso somarmos lares com grande parte dos utentes infetados, ficamos com a nítida sensação de que a catástrofe se instalou.
Mas importa olhar para lá dos números e ver o que a realidade nos indica.
Comparando com março ou abril, o coromnavírus está, de facto, mais contagioso. Os números diários de novos infetados assim o indicam.
Mas isso não se traduz na mesma gravidade para os pacientes que testam positivo, pois a grande maioria permanece assintomática, isto é, acaba por não desenvolver a doença covid-19 apesar de ser portador do vírus que a provoca.

O mesmo se passa com a economia portuguesa. As previsões do Banco de Portugal apontavam para uma queda do Produto Interno Bruto na ordem dos 9,5 por cento. Afinal, na realidade, a economia portuguesa recuou 8,1 por cento, isto é, uma diferença de 1,4 por cento. É neste contexto que fazem cada vez mais sentido as palavras de D. José Cordeiro, este fim de semana, dedicadas “às pessoas doentes, às pessoas em recuperação, às famílias, às IPSS’S, uma mensagem próxima de coragem, confiança e esperança”. “A todos os cuidadores e autoridades civis e sanitárias, bem-hajam!”, terminou.
Haja, por isso, esperança no futuro.
Um futuro de todos, com todos e para todos. Como o Papa Francisco procurou lembrar na mais recente encíclica papal, "ninguém se salva sozinho" e chegou realmente o momento de "sonhar como uma única humanidade", na qual somos "todos irmãos".
Não é hora de apontar dedos, escolher culpados. Temos um problema, é tempo de o resolver.
Como explicava por estes dias o Vatican News, às dúvidas existentes, a Encíclica responde com um exemplo luminoso, o do bom samaritano, a quem é dedicado o segundo capítulo, "Um estranho no caminho". Nele, o Papa assinala que, numa sociedade doente que vira as costas à dor e é "analfabeta" no cuidado dos mais frágeis e vulneráveis, somos todos chamados a estar próximos uns dos outros, superando preconceitos e interesses pessoais. Pois todos nós somos corresponsáveis na construção de uma sociedade que saiba incluir, integrar e levantar aqueles que sofrem.
Como recorda a Encíclica – “a estatura espiritual da vida humana é medida pelo amor que nos leva a procurar o melhor para a vida do outro”.

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