Ricardo Mota

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Ano três mil e setenta e nove (3079). Encontro-me algures no meio da água-mãe, num ponto de onde dizem terem partido terráqueos que deram a conhecer ao mundo novas civilizações. Com um simples pestanejar accionei mecanismo telepático existente no cérebro e fiquei a saber, através de receptor situado na estufa à qual pertenço, que este sítio se chamou Portugal. Pelos algarismos implantados nas testas dos viajantes observo ser este local procurado por seres oriundos de sítios diferentes.


Os de Umbigo Inchado…

Neste louco momento pandémico, neste horrível atravessar sinuoso do desconhecido, nesta ditadura do silêncio e quietude que encapsulou a humanidade, colo-me à janela no observar do mundo. Daqui, por detrás do vidro, confinado, cumpridor, respeitando a virulência da covid19, tento antever a nova normalidade, o que nos espera, o que aí vem.


Ordem na mesa

E eis que nos confins da China, germinando dum cocktail da natureza, emerge monstro devorador que, usando os jovens, filhos e netos, os arremessa para fazer sucumbir os pais e avós, segunda e terceira geração contra os idosos que os geraram. Este vírus, malévolo e inteligente, sem que seus soldados se apercebam, os jovens, carrega-os de balas mortíferas, espalha-os socialmente com um único fito, atingir os mais fracos, os vulneráveis.


O Rei Dormente…

Não num Conto de Fadas, mas num real Reino, dos que antigamente reinavam, algo de gravoso acontecia trazendo o povo angustiado. O Rei, de virilidade insuspeitada, fez pela sucessão mas, destino atroz, todos os nove filhos morreram antes dele. Fado cruel, o último vivo, homem e herdeiro do trono, faleceu após plantar semente na barriga da princesa, sua esposa. Mas os céus e os ventos estavam todos contra este pequeno reino bordejado de praias oceânicas viradas para outros mundos.


Pragança…

Sem êxito, tento passar a mensagem que o segredo da elevação social passará simplesmente pela humildade. Qualquer que seja a profissão, pedreiro, carpinteiro, médico, economista, caixa de supermercado, se não de braço dado com a humildade, o respeito da sociedade esvai-se no efémero.
A cultura, a formação, o poder económico, desligados desse nobre sentimento, não colocarão, por si só, os personagens no Olimpo, no sítio onde mora a posteridade.


Atentado a El-Rei…

Meti-me a caminho com plano mais que delineado, ir ver com olhos de ver, o que durante quarenta anos não vislumbrei. Num sábado soalheiro, temperado pelo fresco da época, encontro-me dentro do barco que me levará de Cacilhas para o Cais do Sodré. Esta viagem, a preço de transporte publico, aventura ao alcance de todos, deslizar sobre o espelho do Tejo, ser mirone no acordar de Lisboa e ao som do borbulhar das águas cansadas que vêm das Espanhas para nos cumprimentar, sentir a brisa que nos afaga a face, só pode ser oferta dos deuses que moram por cima do azul do céu.


Atentado a El-Rei…

Meti-me a caminho com plano mais que delineado, ir ver com olhos de ver, o que durante quarenta anos não vislumbrei. Num sábado soalheiro, temperado pelo fresco da época, encontro-me dentro do barco que me levará de Cacilhas para o Cais do Sodré. Esta viagem, a preço de transporte publico, aventura ao alcance de todos, deslizar sobre o espelho do Tejo, ser mirone no acordar de Lisboa e ao som do borbulhar das águas cansadas que vêm das Espanhas para nos cumprimentar, sentir a brisa que nos afaga a face, só pode ser oferta dos deuses que moram por cima do azul do céu.


Dado....

Diz o povo que a cavalo “dado” não se olha o dente. Na História que vou contar, nada foi de graça, foi hecatombe orçamental. Naqueles tempos, nos idos anos de 1400, no reinado do patriarca da Ínclita Geração, El-Rei D. João I, Portugal atravessa pequena crise económica e o monarca, em segredo, congemina desviar o tráfego marítimo do Mediterrâneo Ocidental para o portentoso estuário do Tejo, de barriga aberta para o receber.


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