A opinião de ...

Saturação

Três meses e meio depois do início de um período que os portugueses nunca mais irão esquecer, em que as expressões “confinamento” ou “distanciamento social” entraram no nosso dia a dia de repelão mas tomaram conta do sofá da sala, já não esperava ainda escrever sobre a pandemia e a covid-19. Pelo menos, não até outubro.
Tentei resistir mas a verdade é que, por maior que seja a saturação que já tenhamos com o tema, ele veio para ficar. Imiscuiu-se no meio de nós vai condicionar os nossos comportamentos em sociedade nos próximos anos, se não para sempre.
Ouvi recentemente que demoramos 21 dias de repetição até enraizarmos um comportamento. Mas demoramos 90 dias (três meses) até que esse novo comportamento se torne uma nova forma de vida.
Ora, com a covid-19 tivemos de alterar muitos comportamentos e suspeito que muitos deles se venham a tornar parte integrante na nossa nova forma de vida.
Felizmente estamos num território que propicia que muitos dos comportamentos preconizados para nos defendermos do vírus são muito mais fáceis de adotar do que no litoral, onde falta habitação e transportes e onde os espaços coletivos, como os centros comerciais, são, para muitos, o único escape possível. Por lá, não há hortinha ou aldeia que os safe.
Numa região em que praticamente já não há transportes públicos (a não ser para… o litoral), em que a demografia é das mais baixas do país, é mais fácil criar distâncias de segurança.
Mas o que os últimos dias nos ensinaram é que, com toda a gente saturada do confinamento, a tentação para baixar a guarda é grande, até pela própria Guarda.
Um susto que pode muito bem derivar dos movimentos vividos na semana dos feriados, a 10 de junho. E que deverá servir para nos abrir os olhos. Baixar a guarda é sinónimo de aumento de casos. Mais casos são sinónimo de mais confinamento e é isso que todos queremos evitar, até porque o bom tempo convida agora a desconfinar na praia ou nas esplanadas.
Mas não é só a Guarda a baixar a guarda. Continua a ver-se a tentação de misturar política na hora de combater o vírus. Excesso de voluntarismo não acalma a população nem ajuda à boa gestão dos dinheiros públicos. Comprar os primeiros testes que nos aparecem à venda só porque isso pode acalmar as pessoas não é a melhor resposta. Pelo contrário, pode dar origem precisamente ao contrário, ao aumento dos casos. E isso, já se sabe, só satura ainda mais.

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