A opinião de ...

Cidadãos e Transição Digital em Saúde - I

De novo convosco, estimados leitores, refletindo sobre a Transição Digital (TD), matéria que aparenta alguma aridez. Não é verdade que quotidianamente ouvimos falar de TD?
No texto anterior, lembro, referi que a TD é o processo de capacitação de pessoas e organizações fazerem o mesmo com menos recursos. É ambicioso o programa europeu e mundial de tornar o Homem capaz de fazer mais e melhor com vantagens significativas para o crescimento económico, conceito diferente de desenvolvimento humano, que é socialmente mais rico.
Atentemos o olhar sobre o Plano de Ação para a Transição Digital (PATD), sinalizado pelo Governo e defendido pelo mundo empresarial fazendo uma síntese dos temas fundamentais, e, finalmente, tecendo brevíssimas reflexões.
Assim:
1. Os princípios orientadores norteadores do PATD são os seguintes: (a) foco no cidadão; (b) ambição; (c) pragmatismo; (d) envolvimento; (e) comunicação e promoção; (f) monitorização e responsabilização.
2. Este Plano assenta em três pilares que suportam esta ação: (a) capacitação e inclusão digital das pessoas; (b) transformação digital do tecido empresarial; (c) digitalização dos serviços do Estado.
3. A capacitação e inclusão digital das pessoas exige três medidas e várias iniciativas: (i) educação digital; (ii) requalificação e formação profissional; (iii) inclusão e literacia digital.
4. Se utilizarmos uma ferramenta usada no âmbito empresarial – a análise SWOT - strengths (forças), weaknesses (fraquezas), opportunities (oportunidades) e threats (ameaças), afirmaremos o seguinte:
4.1. Forças mobilizadoras deste Plano: (i) Necessidade de um estado social forte; Integração de conhecimentos; (ii) Inteligência Artificial; (iii) Atores interessados: sector público, universidades; escolas; empresas; (iv) Meios de comunicação. Quanto às fraquezas, situam-se no rendimento das famílias, no acesso e custos elevado dos equipamentos, e nas periferias territoriais. As ameaças ao sucesso da TD são essencialmente (i) as alterações do mercado e do mundo do trabalho, (ii) a utilização indevida por técnicos que infringem a privacidade e liberdade individual, e (iii) a falta de transparência e de dignidade das redes sociais.
5. Pretendo, aqui, valorizar a questão da iliteracia em saúde, que os cidadãos experimentam nas periferias territoriais (ver texto anterior). Ora, «Em Portugal, os estudos revelaram que existe um elevado número de pessoas com baixos níveis de literacia, particularmente os idosos, com doenças crónicas, com baixos níveis de escolaridade e baixos rendimentos (DGS, 2018)». Esta asserção está exemplificada no episódio referido na crónica anterior. A OMS refere que a literacia se mede pela capacidade que os indivíduos têm de obter, processar e entender as informações básicas de saúde para utilizarem os serviços e tomarem decisões adequadas sobre a sua saúde. Ora, a literacia será promovida, se conseguirmos mudar os comportamento individuais e coletivos face à doença, aos seus comportamentos e hábitos e à capacidade de evitar riscos.
Então, a reflexão: a quem cabe proporcionar a educação digital e a literacia digital? Estarão as escolas, as universidades, os municípios, o setor público, o setor privado e os movimentos de cidadãos preparados e mobilizados para este grande desafio, qual é o de conseguirmos alcançar um modelo de sociedade em que a TD favoreça a inclusão?
Paulo Cordeiro Salgado – 9.11.2022.

Edição
3911

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