A opinião de ...

Nem a última encomendação, da assembleia do clero com agentes funerários, teve tanto impacto.

Retomar as missas a 31 de maio não significou ainda o fim à pandemia, mas o regresso a uma nova normalidade. Os Bispos acordaram orientações com as autoridades sanitárias para garantir a proteção contra a infeção, responsabilizando-nos a todos e cada um. Agora a hora é de cada bispo à frente da sua Diocese.
Este combate quase exige de cada diocese o seu diretório de culto em tempo de Covid - 19, um manual de procedimentos na contingência, detalhado, celebração por celebração, para lutar conjuntamente, com mais rigor, contra tal inimigo.
Grande dor, mais simplicidade, nos gestos, mas atitudes mais expressivas e autênticas. Redobrou-se a atenção ao distanciamento e, aos aspetos de higiene, a ponto de algumas pequenas comunidades terem dificuldade em acolher todos os seus fieis no interior dos seus pequenos templos e, de implementar tão austero ritual de manobras de higienização.
Os funerais foram de todas as celebrações as mais castigadas. Os velórios continuam suspensos, a celebração exequial em alguns casos deixou de se fazer, havendo apenas o enterramento do féretro, na presença de 1 ou 2 familiares, tal o perigo de expansão do contágio.
As expressivas manifestações de solidariedade social, de afeto comunitário, que constituíam cada enterro em Trás-os-Montes, colapsaram da noite para o dia.
A noite de vela, que antecipava o funeral, enchendo a igreja, palco da expressão da amizade, quantas vezes observatório social e, lugar de troca das informações do momento, transferiu-se para uma hora antes da missa de corpo presente com o defunto e, os seus. O cansaço e o barulho do velório deram lugar ao repouso da família e, os breves momentos de que agora dispõem para o defunto, transformaram “a feira”, em sentido e apertado recolhimento humano e, de fé.
A igreja deixou de ser depósito, transferindo-se este para a morgue dos hospitais, ou crematórios.
A urna selou-se, nalguns casos e, noutros abre-se quase só para reconhecimento do cadáver, uma hora antes da missa, evitando o tumulto da multidão, as afetuosas e, intermináveis despedidas.
As demoradas celebrações eucarísticas cantadas, e os laudatórios encómios ao que fenece, encolheram, não fosse a teimosia de alguns conservadores, que quase arriscaram a ser presos nas igrejas, reduzir-se-iam a uma simples oração de despedida.
O espantoso jardim florido que circundava a urna sumiu-se, pois as flores de mão, em mão, podem por a circular a infeção.
Nem o hissopo escapou, à voragem do vírus, com ele também foi o caldeiro de água benta, onde todos aspergiam e, alguns fletindo expressando um último aceno, ou arremesso, quase caíam.
Nem beijos, nem abraços, apenas um fletir ligeiro a dizer estou aqui, vai agora florescendo do adro para dentro da igreja, onde antes estavam apenas alguns e, onde agora fica a grande maioria.
Os faustosos candelabros elétricos em torno do finado apagaram-se e, a cruz junto do caixão desapareceu com eles. Voltaram os círios e, com eles retoma-se a luz da Ressurreição.
Ainda não há acompanhamento ao cemitério, com a cruz, as lanternas e, o sacerdote.
Da aflição do momento presente tiremos oportunidades. Do desespero arranquemos suaves fragâncias de renovada esperança. O tempo é de atuação conjunta, para purificar hábitos, higienizar rotinas que o desleixo sacralizou. Confinamos, mas agora configuramo-nos a uma nova vida, é preciso saber fazê-lo.
Nem o propósito da última encomendação, saída da assembleia do clero com os agentes funerários, teve tanto impacto como o do momento que atravessamos.
[da reflexão com um grupo de amigos, agentes funerários de Bragança].

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