A opinião de ...

Memória de papel

O título desta minha crónica poderia, numa primeira análise, remeter para a memória dos computadores que, devido aos trabalhos recentes da investigadora Elvira Fortunato, podem, num futuro breve, basear-se em transístores de papel. Não é disso que se trata, embora ande perto dessa quase realidade que se adivinha para muito breve. Li, recentemente, que a era dos cyborgs será inevitável e está próxima. De facto já começou! Ainda não chegou o homem biónico mas o seu predecessor já existe e está entre nós. São cada vez mais raros os seres humanos que percorrem a sua caminhada por esta vida suportando-a exclusivamente no desenvolvimento natural dos seus órgãos e funções. São inúmeros os artefactos de criação artificial que já integram o nosso corpo, complementando e melhorando as nossas atividades e funcionalidades. Obviamente que há exemplos evidentes dessa realidade que nos chegam todos os dias a casa através das notícias das mais diversas descobertas científicas neste campo. Hoje mesmo, dia 5 de outubro, data em que escrevo este texto, foi notícia no canal de notícias Euronews a caminhada do tetraplégico Thibault por recurso a um exosqueleto controlado direta e exclusivamente pela sua mente, tal como acontecia, de forma natural, antes da queda de 15 metros que lhe provocou uma lesão na espinal medula deixando-o paralisado. Ninguém ignora, nos tempos de hoje os diversos implantes, uns mais complexos que outros que, desde o velhinho pacemaker que conta já mais de sessenta anos, até aos complexos sistemas de rins artificiais. Mas também há os pequenos artefactos que integram já o nosso dia-a-dia como extensões de nós próprios acabando por serem complementares aos nossos órgãos. Constatei isso recentemente quando visitei a minha neta e esta me viu, logo de manhã e tapou os olhos com a mão pois não me queria ver assim... sem óculos. Na mente dela, os óculos fazem parte da entidade “avô”. E fazem. Sem eles eu fico amputado e com acesso muito limitado à leitura e escrita.
Lembrei-me deste episódio há alguns dias quando uma pessoa amiga publicou no facebook uma imagem de um texto manuscrito com muitas rasuras e correções pois era assim que os escritores trabalhavam os seus textos há algumas décadas atrás. Lembro-me de ter comentado que o trabalho de revisão, correção e aperfeiçoamento dos textos não deixou de ser feito as porque estes são editados em computador que permite o “corta e cose”, perde-se o rasto às várias versões, rascunhos e esboços. A pessoa que publicou a imagem respondeu muitíssimo acertadamente que o papel tem memória.
Curiosamente, falando deste “incidente” com outro amigo, ligado às artes, referiu que, no caso dele a situação é inversa pois quando desenha em papel e se, por qualquer razão, tiver de apagar o que fez tem de se lembrar antes que neste meio não há a opção de undo (desfazer).
Daqui resulta que, sem quase darmos por isso já integramos a memória digital, seja do computador ou do telefone, como uma expansão natural da nossa própria memória nativa e tem, nos tempos correntes, uma importância de relevo na nossa vida. Não será de espantar que, num futuro próximo, a memória artificial tenha uma valia superior à outra, recebida à nascença!

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