A opinião de ...

O Livre devia pensar melhor

A campanha eleitoral deveria servir para esclarecer os eleitores. Muitas vezes, porém, não passa de um leilão de promessas misturadas com algumas propostas que necessitariam de maior reflexão antes de serem apresentadas a quem vota.
Por isso, não deixa de ser irónico que seja um partido que se autodenomina Livre a querer tirar aos pais a liberdade de darem aos filhos a educação que entenderem. Em vez de defenderem o fim da disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC), deveriam preocupar-se com os alunos que não têm educação moral e, em primeiro lugar, não confundir educação moral com catequese.
O sítio do Secretariado Nacional da Educação Cristã (SNEC), organismo da Igreja Católica em Portugal e responsável pela EMRC e pela catequese a nível nacional, traça uma distinção clara entre as duas realidades, apesar de assumir a sua complementaridade. “Os programas e as finalidades da EMRC são bem distintos da catequese. Trata-se da abordagem crítica e sistemática dos valores que integram a construção da pessoa e da sua participação plena na sociedade, em ordem a uma cidadania plena. Não é o local de iniciação aos ritos litúrgicos ou experiências espirituais comunitárias”, pode-se ler.
Enquanto na EMRC se promove uma educação para a cidadania plena, a catequese é um percurso que tem como objetivo inserir o batizado numa comunidade concreta e completar a sua iniciação cristã preparando-o para receber os outros sacramentos da iniciação cristã: a eucaristia e a confirmação, ou crisma. Só depois de ter completado essa caminhada – e de ter recebido o batismo, confirmação e a eucaristia – é que a Igreja o considera um cristão adulto.
O Livre deveria era pugnar para que os alunos que não têm uma filiação religiosa sejam, também eles, educados para a cidadania. Essa preocupação é transversal a todas as disciplinas, sendo exigida pela legislação atual. Acontece porém que em muitas escolas, dada a extensão dos programas das outras disciplinas, essa formação é confiada, exclusivamente ou quase, à disciplina de EMRC.
Os alunos que não se inscrevem em EMRC acabam por ser prejudicados e não têm uma educação tão completa como a dos seus colegas. O Livre devia era exigir que crentes e não crentes tivessem uma educação para os valores e uma melhor preparação para a cidadania.
Dado que a nossa cultura é profundamente marcada pelos valores cristãos, a ausência de formação nesse capítulo acaba por privar muitos jovens de conhecimentos e de conceitos que são centrais para interpretar e poder interagir com muitas obras de arte produzidas no contexto ocidental. Felizmente para todos, hoje mesmo os não crentes são aceites nas aulas de EMRC, porque “a fé não é um pré-requisito para que o aluno se envolva na dinâmica da aula”, como se lê no sítio do SNEC.
Ou seja: os professores de EMRC estão a colmatar algumas das lacunas do ensino em Portugal e a contribuir para que muitos alunos, mesmo sem fé religiosa, saiam das escolas melhor apetrechados culturalmente e assim poderem ser melhores cidadãos. Em vez de dificultar o acesso dos alunos à educação moral, devia antes o Livre lutar para que ela fosse universal. É o que acontece em muitos países europeus, sobretudo nórdicos, em que essa disciplina é curricular e obrigatória.

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