Ernesto Rodrigues

O poeta João Rodrigo

O final de 2022 fechou os olhos a figuras ilustres – o Papa emérito, Pelé –, mas, dias após um funeral de que soube pelo Carlos Pires, sofremos por João Rodrigo, recordado em velhas cumplicidades nascidas no Mensageiro de Bragança (MB).
Não verifico agora, na emoção do momento, o que sobre ele escrevi no semanário Tempo (Lisboa), em 25 de Janeiro de 1979. O artigo intitulava-se “Liberdade: a cor do homem”, e nesse tom o vejo, no dizer libérrimo, antes e após Abril de 1974.


Teatro, arte da respiração

No ano em que me estreei em livro (Inconvencional, poesia, 1973), escrevi a primeira de onze peças, agora reunidas em Teatro (Lisboa, Edição do Autor, 2021, 572 páginas). Era o sonho de uma arte participada por todos, como se exigia para uma diferente respiração nacional, politicamente moribunda. A Pedra metaforizava a opressão desse tempo, na figura de polícia que vem prender jovem universitário rebelde, escrevendo peça com o mesmo título, enquanto pai emigrante sufoca, sem perspectivas de amanhã, sob o cinismo do regime.


Um inédito de A. Feijó dirigido à Guilhermina de João Sarmento Pimentel

A principal correspondência de António Feijó (Ponte de Lima, 1859), nosso embaixador em Estocolmo, onde morre (1917), em posse do escritor montalegrense José Dias Baptista é dirigida ao conselheiro dr. António de Barbosa Mendonça, Casa de Rande, Longra, Felgueiras. O nome próprio é mais extenso (dedicatário em versos de Feijó, inscreve segunda preposição: António de Barbosa de Mendonça), e assim a sua intervenção cívica, sobrevindo (1938) ao amigo e à filha Maria Guilhermina de Barbosa Mendonça (1889-1912), a qual tem devoção popular nas redondezas.


Casa da democracia

Manhã ou meia tarde pede este inesperado Sem Papas na Língua (Livros Horizonte, 205 p.), de Zé de Bragança, alter ego de José Luís Seixas, político, autarca e conselheiro presidencial, que não deixou de ser advogado e, desde o início do milénio, se revelou cronista de mão cheia. Mais: alguém que, em textos breves e com despacho estilístico e irónico, radiografa os principais sectores da vida social e política. Se fôssemos país habituado a reflectir sobre passos dados e protagonistas de quinta categoria, melhorávamos esta democracia – de pacotilha, tantas vezes.


A Morte de Germano Trancoso

No Verão de 1968, intervalando longas férias com um retiro no Seminário de Vinhais, José Mário Leite e eu ganhámos um concurso literário – ele, com o melhor texto do primeiro ano; eu, com o melhor contarelo do segundo ano (ainda me lembro do péssimo título: “Passeio matutino”), gloríola com que passei ao Seminário Maior. Conhecemo-nos há 49 anos.


Amor de perdição ou amor da perdição?

O Cuidar e Sospirar [1483] [1] é «a composição colectiva mais extensa» do Cancioneiro Geral, de Garcia de Resende (1516). Este «longo processo judiciário em redondilhas» (p. 9-10), qual «fachada arquitectónica ou então como abertura musical e, seguramente, emblema evocativo do requinte da corte de D. João II nos começos do seu reinado» (p. 10), resume-se à disputa, em 3172 versos, sobre saber «qual era maior tormento / e dava mor sentimento» (v. 2416-7), se cuidar, ou suspirar. Sendo embora o nosso «primeiro inferno de amores» (p.


Dicionário do estômago

Vem o Outono e dá-nos para apetecer mesa demorada, uns acepipes que combatam tristezas de nação em piloto automático, como se não precisássemos de governo, nem de orçamento. O tempo arrefece, mas ao bacalhau constipado (também eu começo a ficar) prefiro um bacalhau da bruxa de Valpaços, que ignorava existisse: afinal, diz Virgílio Nogueiro Gomes no agora saído do forno Dicionário Prático da Cozinha Portuguesa (Marcador, 2015), também há coelho da bruxa de Valpaços…


Francisco, leitor de Vieira

No dia 4 de Março, às 9 da manhã (hora do Vaticano), recebia o Papa Francisco delegação portuguesa que lhe ofertava os 30 volumes da Obra Completa de outro ilustre Jesuíta, o Padre António Vieira. Às 18 horas romanas, na igreja de Santo António dos Portugueses, onde Vieira pregara, o bispo Carlos de Azevedo apresentava essa colecção de sermões, cartas, profética, vária.


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